Tudo no sítio certo: o regresso dos Radiohead

Radiohead

Cinco anos depois de The King of Limbs, Thom Yorke e companhia estão a voltar.

Acordei com uma boa notícia no email. Estava a chover, mas lá me levantei e saí de casa para comprar dois bilhetes para o segundo dia do NOS Alive. Se tudo correr bem, vou ver a minha banda favorita ao vivo pela terceira vez a 8 de julho.

Não me refiro a Father John Misty, Courtney Barnett, Hot Chip, Years & Years, Tame Impala ou Foals. Falo, claro, dos Radiohead. São a única banda por que faria algo deste género – não havia propriamente necessidade de comprar  os bilhetes, mas foi mais forte do que eu.

A minha história com os Radiohead

Quando comecei a ouvir Radiohead já eles tinham lançado Hail To The Thief em 2003, pelo que se pode dizer que cheguei muito tarde.

Há dias, um amigo comentava no Facebook, a propósito da morte de David Bowie, que 1.Outside, de 1995, foi o primeiro álbum dele que comprou: “Foi um início tardio. E sabem o que dizem dos convertidos que começam tarde: são os mais fanáticos.” Não sei se é assim tão simples, mas é certo que me identifiquei com isso. É que a minha relação com a música dos Radiohead é semelhante.

Lembro-me do momento que me levou a começar a ouvi-los compulsivamente e é um bocado ridículo: estava num autocarro em Lisboa com dois colegas, um deles começou a cantar “But I’m a creep, I’m a weirdo” e eu fiquei com a música na cabeça. Tive de ir ouvi-la. E depois o resto de Pablo Honey. E ao longo de meses mergulhei profundamente em The Bends e OK Computer. Saltei também para Hail To The Thiefporque ainda não estava na altura de me perder em Kid A e Amnesiac. E também me lembro do momento em que Kid A fez clique. Pus o álbum a tocar numa viagem de autocarro para o Alentejo e, depois de “Everything In Its Right Place”, que já me dizia bastante na altura, começou a música que empresta o título ao álbum: “Kid A”. Não sei se foi o contexto, se outra coisa qualquer, mas aconteceu algo. E pronto, estava perdido para o mundo. Rendido também a Kid A e Amnesiac, parti para as drogas duras do consumo musical: lados B, temas não editados e, claro, bootlegs.

Entretanto tinha começado a comprar os discos. A minha ideia era comprar os (na altura) seis álbuns e três EPs – seria essa a minha coleção de Radiohead. Oh, mas como estava enganado. 12 anos e 141 discos depois, posso dizer com alguma segurança que a estimativa inicial acabou por bater um bocado ao lado.

Em 2008, estava a trabalhar no Rock In Rio quando decidi que era um bocado estúpido haver um concerto de Radiohead em Barcelona, haver bilhetes e eu não ir. Então fui passar a véspera de Santo António ao Daydream Festival, no Parc del Fòrum – que é também onde decorre normalmente a versão catalã do Primavera Sound. Sozinho e rodeado de espanhóis (neste sentido, foi muito parecido com os festivais portugueses), não posso queixar-me do concerto: tocaram todas as músicas de In Rainbows e ainda consegui ouvir “The Bends”, “Paranoid Android”, “Idioteque” e “Planet Telex” a fechar.

Voltei a vê-los em 2012 no Optimus Alive e continuavam a ser um portento ao vivo. Mas já se sabe: não tocam “Creep”, tocam muito pouca coisa de The Bends – fecharam com a magnífica “Street Spirit (Fade Out)” – e se quiserem ouvir “Karma Police”, precisam de ter muita sorte (eu não tive). Juntem-lhe o facto de os Radiohead estarem a promover The King Of Limbs, provavelmente o pior álbum da banda a seguir a Pablo Honey.Algumas pessoas não reagem bem a isso. Já eu… quero lá saber.

O que podemos esperar dos Radiohead em 2016?

Estamos em 2016 (o futuro!) e já passam quase cinco anos desde que The King Of Limbs me desiludiu um bocado. Mas a esperança renova-se a cada nova canção, foto de estúdio ou notícia publicada.

Começou a haver motivos, ainda em setembro de 2014, para assumirmos que vinha aí um novo álbum dos Radiohead. Thom Yorke e companhia não estiveram propriamente ativos na Web nem nos meios especializados, mas foram publicando fotos de estúdio e dando uma ou outra entrevista em que se falava do assunto. Quando Jonny Greenwood abordou, por exemplo, a possibilidade de a banda voltar a pegar em “Lift” – uma preciosidade tocada algumas vezes ao vivo em meados dos anos 90 e, numa versão diferente estreada num concerto em Lisboa, no início do milénio -, a notícia animou alguns fãs.

No entanto, houve dois acontecimentos que contribuíram de forma mais determinante para a ideia de que teremos direito a um novo álbum dos Radiohead em 2016.

O primeiro foi um belo presente chamado “Spectre” que nos deixaram no sapatinho na manhã de Natal – a tal música composta para Spectre, o mais recente filme do franchise 007, que acabou por ficar de fora.

O segundo acontecimento, na verdade, antecedeu o primeiro, mas as notícias só surgiram há dias: os Radiohead criaram uma nova empresa em outubro. Porque é que isto é relevante? Porque fizeram o mesmo antes do lançamento de In Rainbows e de The King of Limbs.

Desde que os Radiohead lançaram In Rainbows praticamente de um dia para o outro em 2007 que é raro saber-se muito acerca de um álbum deles antes do lançamento. Mas na altura, apesar de tudo, a banda tinha feito uma digressão cheia de músicas novas pouco tempo antes, o que deu algumas pistas. Não aconteceu o mesmo com The King Of Limbs e, a não ser que o novo álbum seja editado apenas no segundo semestre (ou depois), é provável que o nono longa-duração dos Radiohead saia à rua sem grandes antevisões.

Entre os temas elegíveis para o novo álbum encontram-se “Skirting On The Surface” e “Identikit”, por exemplo. Sobretudo a última.

https://www.youtube.com/watch?v=j8xDgO2fbdc

De resto, pouco se sabe, mas uma coisa é quase certa: quando tocarem a 8 de julho na 10ª edição do NOS Alive, os Radiohead vão tocar música nova e quem estiver à espera de “Creep” tem de ter noção de que a possibilidade existe, mas é como ganhar o Euromilhões: não nos vai acontecer a nós.

Mas o meu Euromilhões é outro.