“Lift” e eu

Lembro-me perfeitamente da minha reação quando ouvi “Lift” pela primeira vez. No auge da minha doença com os Radiohead, em 2004, atirei pelo defunto MSN Messenger um “Mas porque é que só agora é que me mostraste isto!?” — ou algo do género. Foi amor à primeira vista.

Em retrospetiva, quase parece que não “me mostraste isto” mais cedo porque não é assim que se combate uma dependência. Mas o mais provável é que tenha sido porque aquela “Lift” era uma canção não editada tocada pelos Radiohead ao vivo num festival holandês. Por melhor que fosse, havia seis álbuns e uma catrefada de EPs e lados B para ouvir até à exaustão — as coisas que a banda tinha deixado na gaveta podiam esperar, provavelmente.

Mas não. “Lift” é especial. A facilidade com que se instalou na minha cabeça é a única prova de que alguma vez precisei. Aliás, rapidamente percebi que não era a única pessoa que se sentia assim. Ainda antes de eu saber sequer o que era ser maluco pelos Radiohead, já outros pobres coitados sofriam com o desprezo dado pela banda à canção álbum após álbum. Mas também foi isso que elevou “Lift” a tema de culto. “Lift” era uma boa história e um grande “Eu não te disse!?”, mas acima de tudo era uma das melhores canções de sempre por editar.

Entre 1996 — ano em que os Radiohead tocaram a canção ao vivo pela primeira vez — e o meu encontro com “Lift” em 2004, já tinha havido um acontecimento relevante: uma nova versão, musicalmente mais adequada ao momento da banda, estreada a 22 de julho de 2002 num concerto no Coliseu de Lisboa. Claro que a nova versão acabou no mesmo álbum que a anterior: nenhum.

Os Radiohead não tocam “Lift” ao vivo desde agosto de 2002 e, como é óbvio, o efeito que isso teve na relação dos fãs com a música foi nulo. Amor é fogo que arde sem se ver e essas coisas.

Nada fazia prever que “Lift” alguma vez visse a luz do dia, mesmo depois de “Nude” ter acabado em In Rainbows e “True Love Waits” em A Moon Shaped Pool (ambas também andavam por aí desde meados dos anos 90). Mas os Radiohead decidiram descontrair e anunciaram OK Computer OKNOTOK 1997 2017, uma reedição cheia de coisas boas. As melhores? Três canções nunca antes editadas, mas conhecidas dos fãs: “I Promise”, “Man of War” e, claro, “Lift”.

Passei-me.

E depois veio a espera. A poucas semanas do lançamento, em junho, a banda mostrou “I Promise”. Uma semana depois, “Man of War”. Ambas fantásticas, nenhuma delas “Lift”. A última ficou mesmo para o lançamento — só quando a reedição ficou disponível em serviços de streaming e afins é que foi possível ouvi-la. E é quase injusto tratarem a canção assim. Às vezes parece mesmo que estão a tentar escondê-la das pessoas. Como se ainda estivéssemos em 1996 e houvesse algum risco de os Radiohead se tornarem nos “novos” U2 por causa de uma canção.

Mas tudo isto se tornou irrelevante no momento em que a versão de estúdio de “Lift” me chegou aos ouvidos. A partir de então, a música voltou a ser mais importante do que a história, o mito e o culto. Como na primeira vez em que a ouvi, em 2004.

Quando percebi que a canção era semelhante à versão ao vivo que tantas vezes me tinha feito companhia, foi como viajar no tempo. E aquele início tocou-me como da primeira vez.

This is the place
Sit down, you’re safe now

Senti-me em casa.

Naquela madrugada de junho, a minha felicidade foi dos zero aos 100 em quatro minutos, o que é um péssimo desempenho para um automóvel, mas impressionante para um tipo feito em cacos.

“Lift” faz parte de um clube muito restrito de canções dos Radiohead: as que transmitem uma pontinha de esperança. O sufoco está lá à mesma, mas é para pôr para trás das costas. Está lá à mesma, que a memória é uma merda, mas Thom Yorke acaba a dizer a si mesmo para descontrair (na altura andava toda a gente a dizer-lhe o mesmo, diga-se). Mas é o ambiente sufocante que deixa a esperança brilhar. Ambiente como o destes versos:

You’ve been stuck in a lift
In the belly of a whale at the bottom of the ocean

É tão difícil sair dali.

Talvez seja isto que faz de “Lift” uma companhia tão boa. Gostamos de rodear-nos de pessoas que gostam das mesmas coisas que nós, que têm experiências com as quais nos conseguimos relacionar, que procuram as mesmas respostas. E “Lift” termina sem respostas, mas à procura.

Acho que gosto tanto da canção porque sempre me revi no espírito dela. Sem o barulho do público e a menor qualidade inerente a uma gravação ao vivo como distrações, é como se eu e “Lift” nos entendêssemos perfeitamente. É provável que seja um bocado mais unidirecional do que isso, mas nunca se sabe.

Já era uma das minhas canções favoritas dos Radiohead. Agora, apesar da estranheza de ouvir algo “novo” com 20 anos de atraso, não vejo qualquer motivo para lhe pôr outro epíteto. Ouvi-la faz-me feliz. Para alguém que passa a vida a levar com “ai, só ouves música deprimente” sem alguma vez ter ficado deprimido por causa de música, não está nada mal. É que a música deprimente, na pior das hipóteses, tem sido uma excelente companhia. Mas aquele brilhozinho nos olhos de “Lift” tem a força de mil abraços. E vem-me à memória uma frase batida…

Today is the first day of the rest of your days