Bem-vindo à minha vida, Willoughby Tucker, I’ll Always Love You.
Algo de estranho se passa comigo.
Aqui há coisa de ano e meio, rendi-me a uma — e apenas uma — canção de Ethel Cain. Chama-se “Thoroughfare”, foi lançada em 2022 com Preacher’s Daughter e é uma canção de fogo lento. Soa familiar e soa devagar, mas chega aonde tem de chegar e quando tem de chegar. É preciso paciência, é preciso uma costela emo e é preciso ser lindo de morrer. Três características que, por acaso, possuo.
Dito isto, quando fui testar as águas de Preacher’s Daughter, não me senti puxado e deixei-o estar. E foi neste pé que a minha relação com Ethel Cain ficou: “Thoroughfare” em rotação permanente; o resto… nem por isso.
O que explica, então, que no início deste ano tenha querido atirar-me de cabeça para Perverts, segundo álbum de originais dela? Honestamente, não sei. Não foi “Punish”, o single. Claramente, não foi o álbum anterior. Mas quis. E fi-lo. E foi um balde de água fria.
O álbum não é mau. Mas é, pode dizer-se, um álbum de música ambiente. Soturno, lento, num estilo musical próximo do drone — ou até inteiramente lá. Não é propriamente um álbum que possa encher-me as medidas. Ouvi-o, despedi-me e desejei-lhe boa sorte para a viagem.
Segundas oportunidades
Mas deixem-me falar-vos da importância das segundas oportunidades.
Quando, em junho, surgiu nas plataformas de streaming um novo single de Ethel Cain — e apesar dos maus-tratos de que fui vítima no lançamento anterior —, fui ouvir. Era “Nettles”, uma canção bem mais em linha com o que esperava dela: uma folk poeirenta, lenta e muito, muito bonita. E vinha com a boa notícia de que Willoughby Tucker, I’ll Always Love You, o terceiro álbum de originais de Ethel Cain, seria lançado em agosto.
Tornou-se muito rapidamente numa das minhas canções favoritas do ano. E assim esqueci Perverts e voltei a permitir que as minhas expectativas se elevassem. Apareceu “Fuck Me Eyes”, um segundo single mais dado aos sintetizadores e à pop, algo que também faz parte do caldeirão musical de Ethel Cain, e nada se alterou.
Entrou agosto.
“Janie”, tema de abertura, é uma boa forma de começar o álbum. E é-o de duas formas diferentes. Musicalmente, já lá vamos. Deixem-me começar pela história.
O universo cinematográfico de Ethel Cain
Há um universo narrativo na música de Ethel Cain que sou absolutamente incapaz de explicar e sobre o qual podem descobrir mais aqui e aqui. Mas deixem-me perder um bocado a tentar contextualizar as coisas.
Primeiro, Ethel Cain é uma personagem — ou, talvez, uma heterónima — criada por Hayden Anhedönia, a pessoa por trás de toda esta música. Este álbum, como os dois anteriores, faz parte de um projeto que inclui uma trilogia de obras focadas em Ethel Cain (a filha do pregador), Vera Cain (a mulher do pregador) e Ethel Cain (a avó da outra Ethel Cain). Preacher’s Daughter foi a primeira das três obras centrais da trilogia. Perverts e Willoughby Tucker, I’ll Always Love You fazem parte deste universo narrativo (o primeiro é um complemento à trilogia, o último uma prequela de Preacher’s Daughter), mas não da trilogia central e não se sabe muito bem quando chegará a segunda obra. Nem sequer se sabe se será música, dado o interesse de Hayden Anhedönia por outras formas de expressão, como o cinema e a literatura.
Quanto ao universo narrativo em si, a música de Ethel Cain explora temas difíceis, como o abuso de drogas e álcool, a violência doméstica e a pobreza ao longo de várias gerações da mesma família, algures no sul do Estados Unidos. Esta escuridão temática encontra paralelo na música propriamente dita, que chega a ser repressiva.
Curiosamente, Willoughby Tucker, I’ll Always Love You poderia ser uma espécie de versão mais levezinha de tudo isto, dado que se foca numa Ethel Cain adolescente, movida pelo amor e por uma vontade ingénua de deixar tudo para trás. Mas é difícil ouvir o álbum e ter a palavra “leve” imediatamente disponível para o descrever. Até porque a relação entre Ethel Cain e Willoughby Tucker é tudo menos leve.
Uma lentidão sufocante
“Janie” dá início ao álbum com uma situação muito corriqueira: a mudança que ocorre nas dinâmicas entre melhores amigas quando uma delas começa a namorar com outra pessoa. E, como a história acontece algures nos anos 80, uma pessoa quase consegue imaginar tudo como se estivesse a assistir a esta história de liceu através de uma cassete VHS gasta.
Mas isso leva-me à forma como álbum começa, musicalmente. Soam os primeiros acordes de “Janie” e o meu cérebro corre à procura de referências. E encontra-as rapidamente no cantinho do slowcore, onde fui muito feliz, durante muito tempo, com os Low e os Red House Painters. E não me queixo.
Uma coisa fica clara logo ao início: com dez canções e uma hora e treze minutos de duração, Willoughby Tucker, I’ll Always Love You demora o tempo que tiver de demorar. Que é, claro, uma hora e treze minutos.
“Willoughby’s Theme”, a canção seguinte, dá-nos outra notícia importante: este álbum não é livre de drone e música ambiental. Mas, neste contexto, as pausas narrativas dão jeito, que os pulmões não aguentam a poeira e o coração não aguenta o sufoco.
Mas os melhores momentos são protagonizados por canções propriamente ditas. Além de “Janie” e dos singles “Nettles” — que, vale a pena reforçar, é um absoluto malhão — e “Fuck Me Eyes”, há “Dust Bowl”, “Tempest” e “Waco, Texas”.
Guitarras lentas, paisagens sonoras shoegaze, melodias dramáticas, percussão esparsa, mas intensa… e o tempo que não passa, que não parece sequer existir. Forever, repete ela até à exaustão em “Tempest”, uma canção que não pede licença para nos levar daqui durante dez lentos e intensos minutos… até desaparecer de repente.
E o que dizer de “Dust Bowl”? Que me fez sentir saudades dos Low? Sim. Que é perfeita? Também. Que tem o melhor momento de todo o álbum, quando ela canta “cooking our brains smoking that shit your daddy smoked in Vietnam”? Sem dúvida.
Quanto mais alto se sobe, maior é a queda
Por fim, num álbum tão lento e pesaroso como este, fechar com um tema de 15 minutos poderia ser interpretado como provocação, mas não se pode dizer que não faça sentido. E “Waco, Texas”, um pouco como o resto do álbum, faz por justificar a duração. Não parece ter quinze minutos. Quinze minutos não parecem quinze minutos. Outra vez. Para que serve o tempo?
Não tenho como explicar esta canção. Não tenho instrumentos disponíveis. A canção começa e eu, simplesmente, vou para lá viver. E não, não estive a fumar “that shit your daddy smoked in Vietnam”. “Waco, Texas” acompanha-nos pela mão na subida aos céus, durante onze minutos, e depois atira-nos lá de cima. E a queda é lenta e linda e perfeita e suave e… acaba lá em baixo, como todas as quedas.
Não sei o que me fez ouvir “Nettles” depois da experiência com Perverts. Mas, o que quer que tenha sido, trouxe-me um dos álbuns mais imediatamente arrebatadores que ouvi na vida. O que, para um álbum tão lento, tão longo, tão sombrio, é uma prova de valor artístico inegável. Abençoado instinto.