There it is again, that funny feeling.

Faz hoje anos que o Pedro morreu. Que se matou.

Não sei quem é que ele queria enganar. A mim nunca me enganou. Talvez um bocadinho só. O suficiente para não ter feito nada enquanto ainda havia tempo — mas o que podia ter feito eu?

Lembro-me da viagem para o velório. Sozinho, mas não só. Tinha a voz de Phoebe Bridgers a repetir as palavras que Bo Burnham escreveu para “That Funny Feeling”, canção de Inside, especial de comédia e música lançado na Netflix em 2021. Aquelas palavras ali de cima.

O desespero que caracteriza a canção — tanto a original como a versão de Phoebe Bridgers — tem uma base muito mais macrossocial do que aquele a que, fruto das minhas circunstâncias, a associo. O contexto pandémico, as referências ao zeitgeist e uma leve alusão ao fim da civilização são parte integral do que torna esta canção especial para quem se cruzou com ela ao longo dos últimos anos, sobretudo na ressaca da pandemia.

E o que ouço eu naquelas palavras, naquele desespero? Uma pessoa sem estrada para andar. Uma pessoa no limite. E todas as pandemias, todos os fascistas, todas as crises e todas as guerras não chegariam para empurrar para lá do limite alguém que não estivesse já a espreitar para o lado de lá. Portanto, ouço depressão.

Não sei o que isso é. Nunca lá estive. Já visitei sítios maus, mas esse, especificamente, não me calhou em sorte. Mas há um ar de inevitabilidade, de aperto e de resignação em “That Funny Feeling” que não me deixa libertá-la dessa associação.

Obviamente, a culpa é do Pedro. É daquela viagem. É das semanas seguintes a fechar os olhos e a ver momentos que não vivi. É dos anos de convívio, sempre com aquela sensação esquisita de que havia para ali uma escuridão qualquer.

Uma vez disse-lhe que falava demasiadas vezes em matar-se. Disse-lhe que esperava mesmo que estivesse a brincar. Claro que estava a brincar — não se vê?

Nunca me senti culpado. E acho que também nunca me zanguei com ele por se ter matado. É-me completamente impossível compreender o grau de desespero que é preciso sentir para fazer o que ele fez. Custa-me muito que o tenha feito, mas é o que é. Aceitei.

Vou-me lembrando dele: da paixão por canções obscuras dos anos 80 e rock progressivo manhoso, da familiaridade com acontecimentos absolutamente aleatórios da História mundial, do prazer que retirava de poemas, canções, filmes e tudo o que de mais bizarro havia no plano artístico, das referências partilhadas a O Aeroplano e daquela tarde específica em que o obriguei a decorar a letra da “Faith”, de Bon Iver. (Se calhar, a culpa é mesmo minha.)

Não sei se o Pedro alguma vez chegou a ouvir “That Funny Feeling”. Presumo que não. Mas é a minha música do Pedro. Leva-me de volta àquela viagem, àqueles malditos dias. Porém, também se faz sempre acompanhar de uma recordação, um momento qualquer em que ele ainda cá estava. Não chega para matar a saudade, mas mantém-no vivo no único plano em que ainda consigo ter alguma palavra a dizer.