Bleeds é um dos melhores álbuns de 2025.
Chego tarde, mas sem vontade de pedir desculpa.
Já tinha ouvido os Wednesday por causa do ruído em torno do álbum anterior — Rat Saw God, de 2023 — e, normalmente, não me é fácil de gostar deste rock mais abrasivo. Calha gostar de quando a quando, sem motivo aparente. Rat Saw God não me disse nada, mas Bleeds, o mais recente álbum da banda liderada por Karly Hartzman caiu-me no goto.
Sempre a americana
É possível que tenha havido dois elementos facilitadores. Um é o facto de MJ Lenderman, que lançou um dos meus álbuns favoritos de 2024 e que foi um dos meus destaques em Paredes de Coura, ser guitarrista da banda. O outro é terem escolhido “Elderberry Wine” para primeiro single. Se não é a canção de digestão mais fácil que os Wednesday já lançaram, deve andar lá perto.
Depois de me ter deixado levar pela música de Hurray For The Riff Raff, MJ Lenderman e Waxahatchee no meu ano da americana, surpreende cerca de zero pessoas que esta canção se tenha colado aos meus ouvidos como se colou. E pronto, estava posto o proverbial pé na porta.
Os restantes singles fizeram o resto do trabalho e, quando Bleeds saiu em meados de setembro, eu estava mais do que pronto para o receber de braços abertos. E assim fiz.
De todos, uma
Mais do que liderar os Wednesday, Karly Hartzman tem na banda o seu veículo musical. É ela quem compõe e canta e, arrisco dizer, é provável que seja a única pessoa imprescindível do grupo. MJ Lenderman, de resto, já anunciou este ano que deixaria de tocar ao vivo com os Wednesday. Entre o sucesso que tem conseguido na sua carreira a solo e o fim do namoro com Hartzman, é capaz de não ser mal pensado.
Foi assim, meio por acaso, que percebi que o som dos Wednesday — aqui muito influenciado por Dinosaur Jr., Pavement e coisas mais sulistas, como os Drive-by Truckers — está, em Bleeds, carregado de mágoa e feridas abertas. O estilo de escrita de Karly Hartzman é hiper-específico, as canções são muito geográficas, mas os sentimentos partilhados acabam por ser relativamente comuns: tristeza, admiração, impotência e frustração — com a vida, sobretudo com os outros. Mas, mesmo que não fossem, davam boas histórias. E dão.
Bleeds acaba por ser tudo aquilo que eu esperava: uma mistura de slacker, grunge e country que vai da agridoçura de “Townies”, “Carolina Murder Suicide” e “Elderberry Wine” à berraria acelerada de “Wasp”. A voz dela não é para todos, mas é definitivamente para mim. Meio seca, meio “quero lá saber”, mas bem bonita.
Encontrem-me lá fora
E depois há a viagem proporcionada por “Pick Up That Knife”, que resume o universo musical dos Wednesday na perfeição. Começa morna, com uma melodia inconspícua. E vai andando, com uma pausa para partir tudo pelo meio, até que se senta para descansar. Depois disso, vale tudo. Há pedal steel, há versos da porra e, a partir de determinado ponto, vem tudo por aí fora: distorção, feedback, o coração a bater mais forte, a pele a ficar arrepiada e “they’ll meet you outside” repetido em jeito de ameaça. É aquilo a que os académicos decidiram chamar um final gostoso.
Se mais não houvesse, haveria pelo menos isto. Mas Bleeds não vive só de “Pick Up That Knife” e é, provavelmente, um dos grandes álbuns rock de 2025. Portanto, o clique está mais do que feito. Cheguei aos Wednesday.