Twilight Override, uma surpresa de Jeff Tweedy que roça a obra-prima.
Gosto muito dos Wilco. Não desde que os conheço, mas desde que os percebo.
Desde então, têm-me dado muita coisa boa: a descontração domingueira de Sky Blue Sky, a tensa singularidade de Summerteeth e a absoluta perfeição de Yankee Hotel Foxtrot, entre muitos outros momentos editados ao longo de 30 anos de carreira. Na última década, não me têm entusiasmado particularmente… mas continuo a gostar muito deles.
E também gosto de Jeff Tweedy, mentor e vocalista da banda, mas é mais por admiração e simpatia do que propriamente pelos trabalhos editados a solo. Sinto sempre que falta qualquer coisa, que é tudo demasiado simples, demasiado sempre a mesma coisa para o meu gosto.
Ameaça tripla
Um álbum triplo de Jeff Tweedy tinha tudo, portanto, para ser corrido à vassourada daqui por mim. Contudo, aqui estamos nós.
Twilight Override, o novo álbum, não se afasta particularmente dos terrenos da restante obra a solo de Jeff Tweedy. É folk, é rock, é folk rock. Evita os extremos e alimenta o lado bom da alma. Mas o que o diferencia mesmo é que, aqui, as peças encaixam como nunca antes. E é, arrisco dizer, o mais próximo de um álbum de Wilco que Jeff Tweedy já lançou a solo.
Parece que estou a fazer publicidade a uma aparelhagem, mas não: o som de Twilight Override é cristalino e fresco e a voz de Tweedy surge mais acutilante do que tem acontecido nos últimos anos. E acho que tinha mesmo de ser assim porque são as palavras dele que o pedem.
Das palavras
Nas palavras, de resto, é difícil bater Jeff Tweedy, que escreve como ninguém. Mas, em Twilight Override, isso nota-se mesmo muito bem. E às vezes nem precisa de cantá-las: ouçam “Parking Lot”, uma maravilha em “spoken word” que nos mostra um Jeff Tweedy alternativo que percebe imenso de carros.
Estou a ficar velho e um dos sintomas mais claros da minha decadência física é a falta de paciência para álbuns longos. Por mim, era tudo à punk e estávamos todos despachados em 27 minutos. Mas estas quase duas horas passam a correr. Twilight Override ouve-se tão bem. E há momentos absolutamente inigualáveis que me põem a pensar sinceramente no termo “obra-prima” a propósito deste álbum.
“New Orleans”, no segundo disco, é lindíssima. Cheia de guitarras a fazer sabe-se lá o quê, a tecerem qualquer coisa de inexplicável. E há ali uma relação (sobretudo temporal e de estado de espírito) com a morte de Steve Albini, de quem Jeff Tweedy era bastante próximo. É um momento muito emocional.
Há também “Over My Head (Everything Goes)”, bem bonita. Tem aquela sonoridade noturna do campo, como se fosse uma versão mais lenta e triste da “California Stars”, dos Wilco.
Liberdade condicional
E depois há “Feel Free”, um dos singles, que é uma canção muito curiosa, muito formulaica. É sempre a mesma coisa. Passa o tempo a deixar-nos à vontade para fazermos uma lista de coisas que Jeff Tweedy vai ditando. E vai ganhando corpo à medida que avança… e avança como se nunca fosse parar… até que para no momento perfeito. Aqui há umas semanas, Katie Crutchfield (aka Waxahatchee) escrevia que, depois de ouvir esta canção, tinha ficado com uma vontade enorme de ir compor canções… e acho que nunca percebi nada tão bem na vida como isto.
E o que dizer de “Lou Reed Was My Babysitter”? Esta espécie de ode ao rock’n’roll põe-nos a mexer enquanto nos passa uma mensagem muito simples: o rock está morto, mas os mortos não morrem. Não faltam canções para o provar.
Twilight Override é um álbum do contexto em que aparece. Não creio, no entanto, que corra o risco de se perder na espuma dos dias. Porque, além de incluir uma ode ao rock’n’roll, o álbum é, ele próprio, uma espécie de ode — à tradição musical norte-americana e à resiliência necessária para viver, sobreviver e dar a volta ao que parece ser o crepúsculo dos Estados Unidos. É uma luz no meio da escuridão que começa a instalar-se.
Nunca pensei que Twilight Override me tocasse tanto. Mas tocou. É um belíssimo álbum: de memórias, de ideias, de família (Spencer e Sammy Tweedy, os filhos, contribuíram para o disco), mas sobretudo de canções.