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Crítica: A Moon Shaped Pool, dos Radiohead

Radiohead 2016

Um álbum intenso, difícil e cheio de dor. Um regresso em grande.

Os Radiohead são a banda mais consistente e artisticamente relevante dos últimos 30 anos. Mesmo depois de The King Of Limbs ter ficado uns furos abaixo das expectativas em 2011, a longa espera pelo nono álbum de Thom Yorke e companhia começou a deixar muita gente ansiosa.

A ansiedade foi aumentando com acontecimentos como a divulgação de fotos da banda em estúdio, a criação de uma nova empresa, o lançamento de “Spectre”, o anúncio de uma digressão e atingiu o pico na semana que antecedeu o lançamento de A Moon Shaped Pool, com diversos teasers, duas músicas (e vídeos) interessantes e o anúncio do lançamento propriamente dito.

E agora que o álbum já cá canta, deixamos as criações de empresas, o marketing e a estratégia de lançamento de parte e voltamos ao essencial: a música.

Ao contrário do que a frenética canção de abertura (e primeiro single) “Burn The Witch” faria prever, A Moon Shaped Pool não é um álbum fácil nem imediato. Tem os seus momentos de clareza, mas na maior parte do tempo faz-nos sentir perdidos e desamparados. Nesse sentido, a belíssima “Daydreaming”, o segundo single, ofereceu-nos uma antevisão bem mais realista do álbum.

A Moon Shaped Pool é triste e incrivelmente pessoal de uma forma raramente explorada pela banda. Nos últimos anos, Thom Yorke habituou-nos a letras compostas por indecifráveis quebra-cabeças. E longe vão os tempos da clara crítica social de OK Computer, da autocomiseração de “Creep” e da fragilidade de “Bullet Proof… I Wish I Was”. Mas algo mudou: o vocalista e principal compositor de praticamente todas as canções da banda separou-se de Rachel Owen em 2015, com quem tem dois filhos, após 23 anos de relação.

A separação de Yorke afeta o álbum de forma inequívoca. E afeta definitivamente a forma como o escutamos. Versos como “I feel this love turn cold” (em “Glass Eyes”) ou “Have you had enough of me?” (em “Decks Dark”) gritam dor por todos os lados – uma dor que tinge o álbum de uma ponta à outra.

Não é certo que A Moon Shaped Pool seja um álbum de amor, até porque inclui ingressões por terrenos tematicamente mais familiares na já referida “Burn The Witch” e na fortemente política “The Numbers”, pelo menos. Mas é impossível escapar ao sentimento de perda de Yorke e ao luto que a banda parece ter assumido por completo, dada a forma como os instrumentos se relacionam vagamente uns com uns outros, com muitos jogos de parada e resposta entre o piano de Thom Yorke e os brilhantes arranjos de cordas criados por Jonny Greenwood e executados pela London Contemporary Orchestra.

Soa tudo tão negro, tão sufocante, tão triste. “Decks Dark” leva esta ideia de escuridão à letra, “Glass Eyes” quase provoca um aperto no coração e “Present Tense” suga toda a alegria associada à bossa nova que a contorna com uma letra bastante sugestiva:

As my world
Comes crashing down
I’ll be dancing
Freaking out
Deaf, dumb and blind

Mas A Moon Shaped Pool está também nos pormenores. Nas notas soltas de piano, nas linhas de baixo de Colin Greenwood (especialmente reminescente de OK Computer em “Burn The Witch”), nos salpicos de eletrónica, nas brincadeiras com samples de voz, na utilização de efeitos sonoros do estilo “reverse tape” e nos já referidos arranjos de cordas de Jonny Greenwood. Estes pormenores acabam por tornar claro que isto é mesmo um álbum de Radiohead. Isso e canções como “Ful Stop”, “Present Tense” (que traz à memória os tempos de In Rainbows) e a expansiva “Identikit”.

Há quem considere o álbum aborrecido e desfocado, talvez pela tal dificuldade que lhe é inerente, mas o único sinal que identifico nesse sentido é “Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief”, lá para o fim.

Também lá para o fim, a fechar, está o ponto mais alto de A Moon Shaped Pool. Falo de “True Love Waits”, uma velha conhecida dos fãs que os Radiohead começaram a tocar em concertos em 1995, tendo inclusivamente editado uma versão acústica no álbum ao vivo I Might Be Wrong: Live Recordings em 2001.

Parece-me relativamente seguro afirmar que pouca gente esperava que eles ainda editassem a canção, sobretudo já tendo aparecido num álbum ao vivo. Mas fizeram-no e o resultado é simplesmente perfeito. A canção – agora transformada em balada de piano e voz – encerra na perfeição este álbum triste e marcado pela dor. E tendo em conta o tema central do álbum, é como se fechasse também o círculo da relação. Uma música que antes era uma intensa e quase humilhante declaração de amor incondicional tornou-se, sem mudar letra nem melodia, numa desiludida e nostálgica súplica, na mais triste das despedidas.

É o final perfeito para um álbum em que os Radiohead voltaram a parecer humanos.