Uma tentativa de pôr por escrito o que se passa entre mim e “Spring Into Summer”, de Lizzy McAlpine.

Gostava de ser mais poético. Mas só consigo ser do chão.

Só consigo ouvir esta canção nos ouvidos. Sei que ela me entra pelo corpo e faz qualquer coisa. Mas não consigo encontrar as palavras para explicar o que acontece. É possível que escrever não tenha sido a minha melhor escolha.

“Spring Into Summer” arrebata-me. Tudo nesta canção se cola a mim. A melodia é imediata. A estética americana assenta-lhe bem. A voz de Lizzy McAlpine é de uma perfeição absurda. A letra não me serve direta — vou dizer que é sobre um amor passado mal resolvido —, mas indiretamente: a vida é o que é e o tempo não espera. No shit.

Acho que não temos, como diz a canção, demasiados anos entre nós, mas começamos a acumular um histórico. E o caminho que fizemos até aqui ajuda a justificar o momento. “Ceilings”, há uns anos. O Tiny Desk com os Tiny Habits. A “Hey Ma” em dueto com a Maro no YouTube. Older. “The Elevator” e “Vortex”. O documentário sobre o álbum. Os geniais Mason Stoops e Taylor Mackall.

E que momento é esse? Não sei bem. Uma espécie de êxtase, talvez. Como se fosse possível apaixonar-me a sério por uma canção. Está cá a vontade de passar o tempo todo com ela, de continuar até cair para o lado. E também eu pareço estar, always, forever, a correr de volta para ela.

Ajuda que esteja tão bem escrita. Ajuda que tudo na canção soe perfeitamente. Mas o que a distingue das outras canções bem escritas e perfeitas? Eu e a minha circunstância, como diria Ortega y Gasset, se não tivesse morrido 70 anos antes de “Spring Into Summer” existir. Neste momento, preciso dela.

Talvez seja a minha canção do ano, talvez seja apenas a canção do momento. Seja como for, vou ficar por aqui mais uns tempos.