Sable, Fable, o novo álbum de Bon Iver, ensina-nos umas coisinhas.
Primeiro, veio o EP. Lançado em outubro de 2024, Sable, apareceu como um regresso às origens de Bon Iver: o homem solitário, a cabana na floresta e a dor transformada em música. “Speyside”, o single, foi o epítome desta narrativa, com a voz, a guitarra acústica e discretos arranjos de cordas postos ao serviço de uma letra ensopada em mágoa, culpa e arrependimento.
As duas outras canções do EP — “Things Behind Things Behind Things” e “Awards Season” — não encaixavam tão bem no molde. Na verdade, a primeira parece mais uma “Towers” entristecida e a segunda uma versão despida de momentos que conseguimos encontrar em 22, A Million. Mas isso não impediu que Sable, se instalasse confortavelmente na poltrona reservada para edições que marcam o regresso de artistas às origens.
Mas aquela vírgula marota no título do EP não era apenas capricho. Era — tornou-se óbvio a determinada altura — uma pista para o que aí vinha: um novo álbum de Bon Iver, quase seis anos depois de i,i, lançado em 2019.
Amor é amor é amor é amor é amor é amor é amor
O anúncio de Sable, Fable, composto pelas faixas do EP e mais nove temas novos, veio acompanhado de um single muito diferente do que se podia ouvir no EP. “Everything Is Peaceful Love”, uma canção em que Justin Vernon se ficou pela forma mais simples e direta de dizer o que queria dizer (e o que queria dizer está mesmo ali no título), acabou por servir na perfeição para explicar que Fable funcionaria como um contrapeso à sombra de Sable,.
Sable, Fable abre com a sombra. Na edição física do álbum, esta divisão é particularmente clara: o primeiro disco inclui o que já estava no EP, o segundo inclui o resto do álbum. E as duas cores dominantes — preto e salmão — tratam de cimentar a segregação. Na contracapa, de resto, as referências a Sable, e às suas canções são remetidas para um segundo plano que, digamos, precisa da luz certa para se tornar evidente.
A luz depois da sombra
Mas, depois da sombra, vem a luz. E “Short Story”, além de um belíssimo momento de libertação da tensão acumulada ao longo das canções anteriores, é uma transição particularmente eficaz porque vem em jeito de epifania e pretende tornar bem claro que o inverno de Bon Iver acabou:
January ain’t the whole world
Em Sable, Fable, Justin Vernon arranjou forma de dizer o que tem a dizer sem se esconder atrás de letras difíceis de descodificar. Uma consequência imediata desta nova forma de estar é a quantidade de versos diretos e de sentimentos inequívocos. E se há quem possa estranhar que o músico cante coisas tão imediatas como “pull me close up to your face / honey, I just want the taste” (em “Walk Home”) ou “‘cause you really are a babe” (em “There’s A Rhythmn”), eu ouço-o e penso em como é preciso estar disponível — e vulnerável, até — para passar do impressionismo dos álbuns anteriores para a montra de emoções que ouvimos ao longo de Sable, Fable.
Este espírito contagia também o som do álbum. As curvas e contracurvas de 22, A Million e i,i ficaram para atrás, que agora é sempre a direito. Mas… é Bon Iver — épico, melódico e reconfortante. “From”, “If Only I Could Wait” e “Day One”, mesmo com o ocasional surgimento de vozes à Alvin e os Esquilos, dão-nos a sensação de estarmos sentados à mesa com amigos de longa data. E, no caso de Justin Vernon, talvez reflita mesmo isso, dado que, entre estas três canções, há participações de Dijon, Flock of Dimes, Mk.gee e Danielle Haim.
O aspeto colaborativo tem feito, de resto, parte da narrativa sobre Bon Iver ao longo dos últimos anos, desde o número de artistas envolvidos em fragmentos no álbum anterior às badaladas colaborações com artistas de topo como Kanye West, Taylor Swift e Charli XCX, passando pelo disfarçadíssimo envolvimento de Bruce Springsteen em “AUATC”. E em Sable, Fable, muito por causa do EP, criou-se uma ideia de abandono do projeto colaborativo e de regresso de Bon Iver ao indivíduo. Mas os créditos não enganam: além de grande parte das canções terem sido escritas com os produtores Jim-E Stack e BJ Burton e de umas quantas contarem também com membros da banda como autores, há lá para o meio nomes como Ilsey Juber, Tobias Jesso Jr. e Jacob Collier. Arrisco dizer, portanto, que o projeto colaborativo continua vivo.
O resto da história
Ainda assim, não há volta a dar: os grandes temas do álbum são, provavelmente os grandes temas da vida de Justin Vernon nos últimos anos. Sable, Fable trata o amor por tu, mas isso não vem só com a excitação descontrolada de “Everything Is Peaceful Love” nem com a dependência intensa de “Walk Home”. Vem também com o resto da história. E é esse o grande trunfo do álbum.
Justin Vernon não está feliz. Ou, pelo menos, o álbum não é sobre isso. Fable traz a luz que Sable, tentava esconder, é verdade, mas a luz não escolhe o que iluminar — ilumina, simplesmente. E a história de amor que o álbum conta tem um arco que se complica à medida que vai avançando: aparecem as primeiras frestas em “From” e lá mais para o fim, em “If Only I Could Wait”, já o amor está preso por um fio.
E depois há “There’s A Rhythmn”, o coração e a alma do álbum. O grande final.
Justin Vernon dá-nos um bocadinho da sua vida, da sua história. Mas em vez da ferida exposta de For Emma, Forever Ago, da abstração de Bon Iver, Bon Iver ou da camuflagem distorcida de 22, A Million, “There’s A Rhythmn” mostra-nos uma pessoa que olha para trás sem mágoa e sem dramas. As coisas são como são e ele está numa de aceitar.
Há um ritmo
E volto a falar de aceitação, que me é um tema querido. Eu confundi, durante muito tempo, aceitação com resignação, o que é uma fórmula muito boa se quiserem ser uns pobres miseráveis — algo que, diga-se em abono da verdade, apesar de tudo, nunca fui. Mas já tive a minha dose de autocomiseração, de fuga para a frente e negação. E “There’s A Rhythmn” caiu-me no colo numa boa altura — uma altura em que, tanto quanto consigo perceber, estou disponível para aceitar e continuar a caminhar. E há um ritmo.
Justin Vernon parece ter descoberto o seu. O resultado não é um homem histericamente feliz, mas de pazes feitas com o passado e o presente e com a noção de que a sua experiência de vida, com o bom e com o mau, é o que a torna significativa. E, por isso, é importante aceitar.
Até Sable, Fable, não havia este tipo de clareza na música de Bon Iver. Mas acho que é por isso que o álbum soa tão fácil, tão ligeiro, tão simples — mesmo com a culpa e a mágoa que ainda encontramos no segmento inicial mais sombrio. Não é que Justin Vernon encolha os ombros e diga “é a vida” perante a adversidade. Mas aceitar — aceitar verdadeiramente — transforma a dor em algo mais fácil de digerir, algo mais produtivo. É por isso que não se ouve neste álbum a inquietude que tem marcado a música de Bon Iver desde o início. Porque dói menos.
Haverá certamente quem possa argumentar que Bon Iver é a dor crua de For Emma, Forever Ago, não isto. Mas as coisas mudam, como mudaram quando “Woods” apareceu em Blood Bank ou “Beth/Rest” em Bon Iver, Bon Iver. E há muito que aceitar em Sable, Fable — inclusivamente, que, quando Justin Vernon canta “and maybe it’s the time to go”, pode não estar a falar só sobre a supramencionada “babe”. Ou é suposto ignorarmos que a última faixa do álbum, um belíssimo instrumental composto por Justin Vernon, Andrew Fitzpatrick, S. Carey, Matthew McCaughan, Jenn Wasner, Michael Lewis e Chris Messina (na prática, os Bon Iver), se chama “Au Revoir”?
Sable, Fable é um longo e quente abraço. Pode ser que seja de despedida, pode ser que não. Seja como for, é aceitar. Se estiverem para aí virados, vai saber bem de qualquer forma.