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Um maravilhoso mundo novo para a música

Este artigo foi publicado originalmente no blog do Upload Lisboa.

Já todos sabemos o que aconteceu à indústria da música nos últimos 15 anos. A web deu-nos acesso a mais música, deu-nos a conhecer artistas que nunca chegariam aos nossos ouvidos de outra forma… mas também trouxe muitas dores de cabeça às editoras, sobretudo graças ao advento do P2P, já que, na altura, a indústria não estava especialmente atenta à Internet ou interessada em inovar.

Actualmente, são muito poucos os que ainda compram discos e a música é uma indústria em grande, grande mutação. A venda de música gravada cai a pique mas, ao mesmo tempo, ergue-se com grande genica a indústria dos concertos.

Mesmo que dia sim, dia não se anuncie a morte do CD, ainda ninguém sabe muito bem onde é que isto vai parar. A indústria discográfica aposta (com fracos resultados) no lobbying – em dez anos, a RIAA investiu 90 milhões de dólares em Washington – e continua a ignorar a verdadeira web. As editoras mudam as tácticas do marketing mas não compreendem o potencial de negócio que reside online. Por um lado, vemo-las todas modernaças a apostar no Facebook e afins para chegar às pessoas (nada contra); por outro, negócios por que todos esperamos (olá, Spotify) teimam em demorar a ganhar dimensão porque as editoras não estão muito viradas para aí.

A propósito do Spotify, um dos assuntos que mais se discute no mundo da música diz respeito aos serviços de subscrição, que são uma espécie de Santo Graal da indústria. O Spotify e o português MyWay são alguns exemplos deste tipo de serviços que disponibilizam gratuitamente (vá, com publicidade) milhões de músicas em streaming e que oferecem downloads ilimitados em troca de uma mensalidade. O grande obstáculo à adopção generalizada destes serviços reside nos valores a pagar às editoras por cada reprodução. O Spotify, um verdadeiro caso de sucesso no Reino Unido, continua a apresentar prejuízo e já tem as editoras à perna a pedirem para que os aqueles valores sejam renegociados (para cima, claro). Isto não parece razoável. Porque é que o Spotify ainda não chegou aos Estados Unidos, o maior mercado de música do mundo (e, portanto, uma boa solução em termos de escala)? Não faço ideia. É um verdadeiro mistério.

Entretanto, o YouTube é rei e senhor do streaming – há alguém que não o use para mostrar aquela música nova a um amigo? – e as editoras continuam a não ver o potencial de marketing desta e de outras plataformas. E porquê? Porque querem ganhar uns cêntimos sempre que cada música é reproduzida. Se é justo ou não, é outra questão. Mas eficiente não tem sido. A proverbial cloud ainda está por explorar.

Numa altura em que todos dizemos ao Facebook aquilo de que gostamos, é de estranhar que a indústria da música não aproveite convenientemente a quantidade de informação que estamos, enquanto utilizadores de redes sociais, dispostos a partilhar. Seja no Facebook (eu gosto dos Radiohead, do vídeo dos Wilco e do Optimus Alive, por exemplo) ou no Last.fm, que me recomenda coisas parecidas com o que eu mais ouço, que me mostra pessoas com gostos semelhantes aos meus e que já me trouxe muita felicidade. Dizemos demasiado sobre nós e quem mais tem a ganhar com isso, além de nós, são as editoras (tanto ao nível do marketing como do negócio propriamente dito). Mas não aproveitam. Vamos aproveitando nós como podemos.

Felizmente, alguns artistas já começaram a perceber que não é só com cartazes em taipais de obras e com singles na rádio que lá chegam. Há os casos clássicos dos Nine Inch Nails, dos Radiohead e dos OK Go. Mas há mais. O segredo é perceber que não é fácil, que não basta uma acção para mudar tudo e começar a vender música e a esgotar salas de concertos. Uma coisa é certa: precisam de dar prioridade aos fãs, já que são eles (nós) que vão dar a conhecer a banda ao resto do mundo. Nesse sentido, os Arcade Fire e, mais recentemente, os Broken Social Scene transmitiram concertos em directo no YouTube. Não é revolucionário, é certo, mas… os fãs adoram. E custa muito menos mantê-los do que arranjá-los novinhos em folha.

Fãs devotos fazem de tudo. No ano passado, por exemplo, alguns fãs brasileiros dos Belle & Sebastian angariaram 33 mil dólares para que a banda escocesa lá fosse tocar. Tudo através de um simples site e de uma forte divulgação no TwitterTalk about crowdfunding.

Nesta liga dos crowds, não há nenhum tão bem sucedido como o crowdsourcing. Os exemplos são muitos mas apetece-me partilhar um bem recente. A britânica Imogen Heap, que tem um longo historial de interacção com os fãs, pede-lhes agora que contribuam com sons para o seu próximo single.

E podia continuar por mais dez ou vinte parágrafos cheios de exemplos… mas ninguém quer isso.

É um bocadinho frustrante que esta troca (atenção e dinheiro por música e entretenimento) ainda não esteja muito bem oleada porque, convenhamos, há boas condições para isso. As editoras não se orientam e nós vamos ouvindo música como podemos. A verdade é que aguardo ansiosamente por uma maneira mais confortável de ouvir música do que o YouTube… talvez o URL seja a resposta.

Hoje em dia, temos acesso a artistas a que só muito dificilmente chegaríamos sem a web e sem recomendações dos amigos (e dos outros). As editoras andam aos papéis mas os promotores de concertos agradecem. Entretanto, vamos ouvindo e partilhando mais música do que nunca.