2014: o ano das grandes decisões para o streaming

2014 promete ser um ano decisivo para os principais serviços de streaming, como o Spotify e o Rdio, e mesmo para as variantes mais radiofónicas como o Pandora e o iTunes Radio. Como sabem, mesmo com a dose de défice de atenção que trazem ao consumo de música, sou fã deste tipo de serviços. E a julgar pelo crescimento que o streaming de música tem tido nos últimos anos, não sou o único.

Mas o que torna então 2014 diferente dos anos anteriores? Porque é que este há de ser um ano decisivo?

Número de utilizadores

Já lá vão uns anos desde que começou a falar-se do streaming enquanto opção para os consumidores de música. A primeira abordagem ganhou corpo ainda no início da década passada com serviços de rádio adaptados aos utilizadores e o Rhapsody, o primeiro serviço de streaming on-demand.

Mas os dois maiores contribuidores para que o streaming de música ganhasse dimensão foram definitivamente o MySpace e o YouTube. O primeiro, porque se tornou – pelo menos durante meia dúzia de anos – numa espécie de padrão de presença online para artistas (e incluía a possibilidade de reproduzir músicas em streaming). O segundo, simplesmente porque revolucionou a transmissão de vídeo (e música) na Internet.

A coisa começou a ganhar outra dimensão e na segunda metade da década passada surgiram serviços como o Spotify, o Grooveshark e o Deezer, que oficializaram o início da corrida a este negócio.

Este ano, apesar de haver dezenas de concorrentes a tentar ocupar o mesmo espaço, há pelo menos alguns pontos a favor da prosperidade deste modelo de negócio: os milhões de subscritores pagantes atuais de serviços como o Spotify (neste caso, cerca de 6 milhões) e a quantidade de pessoas que já estão familiarizadas com este tipo de serviços, nem que seja por utilizarem as versões gratuitas (suportadas por publicidade ou não).

Investimento

Além dos poços de dinheiro sem fundo do Google e da Apple, que prometem proporcionar-nos uma luta interessante por uma fatia deste mercado, há as notícias que indicam que o Spotify conseguiu angariar mais de 180 milhões de euros no final de novembro. Isto para uma empresa que tem vindo a aumentar a faturação (mas também o prejuízo) é ótimo porque permite continuar a financiar o crescimento (possivelmente até ao ponto em que a empresa se torne de facto rentável, algo que dificilmente acontecerá nos próximos dois anos).

Mas com estas quantidades de dinheiro a circular, ainda que a circular por poucos, é razoável assumir que vai haver aplicações práticas deste investimento. A verdade é que faz falta algum combustível, porque a adesão aos vários serviços disponível, apesar de forte, está a ser algo lenta.

Transparência

Esta parte é mais tricky. O lançamento do site Spotify for Artists, que explica, entre outras coisas, a forma como o Spotify e os artistas ganham dinheiro com a plataforma é, independentemente de outros pormenores, uma lufada de ar fresco numa indústria em que se especula muito e se sabe muito pouco. Gostava de poder dizer que isto marca o início de uma nova era de transparência mas tenho de me ficar pela ideia de que é, pelo menos, um bom princípio. É que tem tanto de transparência como de contra-informação (o diabo esconde-se nos detalhes, não é?).

Além disto, grande parte do discurso do Spotify neste site é orientado para o futuro – “quando chegarmos a X subscritores, pagaremos X euros”, etc. Ora, não sei se não há um bocado de wishful thinking envolvido neste processo. Mas ei, eles estão a tentar convencer os artistas mais céticos a juntarem-se à plataforma, pelo que até faz algum sentido que lhes deem esta perspetiva de futuro. Se por acaso depois não bater certo, lidam com isso na altura.

De qualquer forma, parece-me um bom princípio. A desmistificação do modelo de negócio pode contribuir para que os artistas se sintam mais confortáveis na relação com este tipo de serviços – e, ao mesmo tempo, transmitem uma ideia de legitimidade aos potenciais consumidores.

Conclusão, mais ou menos

Mais transparência, mais investimento e mais utilizadores. Estes são três grandes argumentos a favor do streaming em 2014 mas só com o passar do tempo será possível perceber se o modelo veio para ficar ou não. Pessoalmente, parece-me que as condições estão mais do que reunidas para que isso aconteça, sobretudo por causa do número de utilizadores já convertidos aos modelos pagos.

A questão é: e se 2014 não for o ano da afirmação dos modelos de streaming pagos? Será que vamos assistir ao mesmo que aconteceu com o YouTube, em que a monetização surgiu já numa fase em que o serviço era para lá de gigante? Ou ficarão as versões pagas de serviços como o Spotify ou o Rdio restringidas a um segmento de mercado relativamente reduzido? Com um investimento tão forte atualmente, não sei isso será suficiente.