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Songs For A Blue Guitar, 20 anos depois

Red House Painters - Songs For A Blue Guitar

Um álbum sobre ausência, sobre saudade, sobre o tempo. E provavelmente o melhor que os Red House Painters editaram.

Não posso falar-vos de como foi ouvir Songs For A Blue Guitar há 20 anos, quando saiu. Era miúdo e estava longe de conseguir sequer associá-los a qualquer coisa que não envolvesse decoração ou construção civil. Mas posso dar-vos algum contexto.

Há 20 anos, por esta altura, os Red House Painters afastavam-se definitivamente da 4AD e editavam um dos seus últimos álbuns de originais. Viriam a editar ainda outro, em 2001, chamado Old Ramon, antes de se transformarem em Sun Kil Moon.

Utilizar o plural quando se fala de Red House Painters nem sempre é a opção mais correta, mas a verdade é que, até Songs For A Blue Guitar, eles tinham sido de facto uma banda – há fotos e tudo. Com a saída da 4AD, no entanto, a situação mudou.

Os motivos para o adeus à casa que tinha mostrado os Red House Painters ao mundo nunca foram explicados. Fala-se da insatisfação de Ivo Watts-Russell, um dos donos da editora, com algumas faixas cheias de longos solos de guitarra. Fala-se também da insatisfação de Mark Kozelek com o facto de a editora não querer editar um álbum dele a solo, nomeadamente What’s Next To The Moon, um álbum acústico de covers de canções antigas dos AC/DC. Com este argumento de venda, quase se percebe a nega da 4AD. De qualquer forma, os factos mantêm-se: depois do brilhante Ocean Beach, de 1995, os Red House Painters deixaram de estar associados à 4AD e levaram a sua música para outro lado.

Mas deixem-me voltar à questão do plural. Mark Kozelek é o único membro dos Red House Painters creditado em Songs For A Blue Guitar. O mentor e principal compositor da banda tornou-se, assim, num sinónimo dos Red House Painters. Quase podemos dizer à brasileira: o Red House Painters.

Na música nota-se um bocadinho. Mas o que o álbum perde, por exemplo, por não ter o brilhante Anthony Koutsos na bateria ganha em direção e sensibilidade pop, algo que Mark Kozelek já começara a namorar em Ocean Beach.

Sabemos que estamos a entrar num mundo novo assim que o álbum começa. A acústica “Have You Forgotten” (que viria a aparecer em 2001 na banda sonora de Vanilla Sky, de Cameron Crowe, numa versão bastante interessante mais lenta e com menos uma estrofe, mas com banda) dá o mote. A escrita vívida de Mark Kozelek contrasta com a sua voz molenga (que eu adoro, entenda-se) e leva-nos a todo o lado com ele: à sua infância, quando ouvia o programa de rádio American Top 40 ou a quando, com os cortinados abertos, conseguia ver as paisagens rurais geladas do Ohio.

A nostalgia de “Have You Forgotten” põe-nos no estado de espírito certo para ouvir o álbum, mas é “Song For A Blue Guitar” que acaba connosco. A sua melodia à “Knocking On Heaven’s Door” entra suavemente e prepara o terreno para a steel guitar dar um ar da sua graça. A letra, essa, é tão melancólica como a mais melancólica das canções escritas por Mark Kozelek. Um ensaio sobre a ausência e a saudade que é, simultaneamente, uma das canções mais belas que o norte-americano escreveu.

O álbum foi dedicado a Katy, com quem Mark Kozelek namorava na altura. O músico sempre se referiu a ela como uma espécie de musa, mesmo depois de se separarem em 1997, mas é curioso como, numa altura em que ainda namoravam (e destaque-se que já em 1993 os Red House Painters tinham editado a belíssima “Katy Song”), a inspiração tenha sido constantemente canalizada para o tipo de sentimentos que associamos a um período pós-relação. Katy viria a morrer de cancro em 2003, numa altura em que Mark Kozelek preparava Ghosts Of The Great Highway, o primeiro álbum dos Sun Kil Moon.

Mas a nostalgia em Songs For A Blue Guitar é difícil de colar a uma só pessoa ou lugar. “Make Like Paper”, a canção mais longa do álbum com mais de 12 minutos, dá-nos mais imagens e sons enquanto nos entretém com riffs enormes do que muitos filmes de hora e meia. É como se o estalar das folhas a que a música se refere e a distorção da guitarra fossem um só acontecimento.

A viagem continua por ali fora, com “Priest Alley Song” e o dedilhado de “Trailways” a trazer-nos de volta à crueza fria das relações. A voz ocupa metade da música. A outra metade é dominada pelo tal dedilhado e distorções e feedback de guitarra elétrica que podiam ter sido uma prenda dos Yo La Tengo, mas são trabalho de Kozelek. O raio do homem sabe fazer muito com pouco e este é um dos momentos mais sublimes do álbum. Melhor, deixem-me perder a cabeça e dizer que é um dos momentos mais sublimes de toda a carreira de Mark Kozelek.

Com tanta guitarra acústica, nostalgia rural e steel guitar, a country já tinha espreitado, mas “I Feel The Rain Fall” dá-lhe lugar óbvio no alinhamento. Fica apenas a faltar um yee-haw, que isto é country dessa.

Se há coisa que podem esperar de um álbum de Mark Kozelek é uma mão cheia de covers de vez em quando. E “Long Distance Runaround”, dos Yes, tem aqui uma abordagem pouco ortodoxa. Transformar rock progressivo em americana (ou folk-country-rock-blues, sei lá) não é para todos, mas nem os Red House Painters resistem a fazer barulho no final para salvar a música do marasmo. Já em “All Mixed Up” não podemos queixar-nos do mesmo. Aliás, esta versão é quase um favor que Mark Kozelek fez aos Cars, já que é daquelas versões que melhora em muito a original. Uma música que só pela tarola e pela guitarra acústica já merecia um Grammy. Continua a ser um exemplar de americana, mas aqui não há dúvida que seria difícil arranjar melhor.

Um dos pontos mais altos de Songs For A Blue Guitar surge quase no final, entre covers. “Revelation Big Sur”, não há dúvidas, é sobre a tal Katy. E é tão honesta, tão realista. Uma relação não é uma coisa ou a outra, é tudo o que é.

You’re the reason that I’m down
But you’re the promise that I’ve found
And you’re all that I’ve got
Who’s the meanest, who’s a genius, who’s mine

Percebem?

E depois há aquele solo de guitarra acústica. E a forma como se funde com o início da última estrofe é algo que não consigo ainda processar convenientemente. Deixo-me ficar quieto a ouvi-la e não faço perguntas.

Até ouvir a canção seguinte, claro está. É “Silly Love Songs”, de Paul McCartney, mas (e aqui vem a pergunta) como é que Kozelek se lembrou de fazer aquilo à canção?

Pois bem, uma canção cuja versão original poderia ter sido escolhida para o genérico de The Love Boat surge aqui totalmente irreconhecível. Começa com um solo de guitarra… de quase cinco minutos. A canção dura 11. E tudo soa diferente – parece que sobraram apenas as palavras. Dito isto, está ali uma sacana de uma boa versão, toda triste e murcha e zangada enquanto Mark Kozelek canta “I love you”. O que faz um gajo a seguir a isto?

Termina com mais country, claro está, mas desta feita lá em baixo, na fossa. Mais um pedaço de honestidade semi-humilhante relacionada com relações amorosas para terminar, que ele não podia deixar-nos ir com uma silly love song. A piscadela de olho aos Led Zeppelin é óbvia: a instrumental “Bron-Yr-Aur”, gravada pelos Zeppelin em 1970 na localidade com o mesmo nome e editada em 1975, é referida na canção e homenageada nos acordes. Ele diz na música que copiou os acordes e, ao ouvir a música, percebe-se porquê.

Com mais de 70 minutos de duração, não pode dizer-se que Songs For A Blue Guitar não exija algum investimento. Mas uma das grandes vantagens de terem passado 20 anos desde que Kozelek mandou os outros Red House Painters à fava e editou esta maravilha de disco é que já se sabe que o álbum é bom, que se aguentou muito bem com o tempo. Pessoalmente, consigo pensar em formas muito piores de passar 70 minutos.

O tempo parece ser, de resto, um aspeto fundamental deste álbum. Pede algum arcaboiço emocional, mas compensa a ocasional lágrima e os momentos de olhar vazio. Songs For A Blue Guitar é o som de coisas a partirem-se lentamente, um álbum em que mesmo as músicas mais rápidas e pesadas parecem andar em câmara lenta e em que o ouvinte parece poder tornar-se volúvel no tempo, como a personagem principal de Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut, mas sem o humor. É tudo mau, tudo mau. Menos a música. Assim continua, 20 anos depois.