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A viagem espiritual de The War On Drugs

The War On Drugs

Só descobri The War On Drugs depois de Lost In The Dream, o álbum que fez de Adam Granduciel uma relutante estrela rock em 2014. Nos temos que correm, é estranho que uma banda assim tenha chegado a estes níveis de sucesso com divagações longas à base de guitarra, ambientes fumarentos e letras pouco inteligíveis. A crítica contribuiu para elevar o estatuto da banda, mas o mérito é todo de Granduciel e companhia.

Num conjunto de canções tão diferentes como o de Lost In The Dream, a falta de foco típica da música de The War On Drugs contribui para um efeito surpresa que nunca parece desaparecer, por mais vezes que escutemos o álbum. E, da mais baladeira “Suffering” à springsteeniana “Burning”, vão encontrar sempre algo com que possam entreter-se.

À luz de Lost In The Dream, A Deeper Understanding pode ser aborrecido, se não estiverem para aí virados. Das dez canções que compõem o último álbum de The War On Drugs, sete duram mais de 6 minutos e uma delas ultrapassa os 11. São 66 minutos de músicas em que a bateria parece muitas vezes servir apenas para marcar o ritmo, sem grandes variações, enquanto Adam Granduciel se distrai com longos solos de guitarra.

No entanto, nas condições certas, é uma daquelas obras em que vamos descobrindo coisas novas sempre que lhe damos um bocadinho de atenção. Nessas circunstâncias, com uns bons headphones, o que antes era repetição agora é uma sessão de hipnose administrada pelo baixista Dave Hartley. E a partir do momento em que nos deixamos levar, nada mais interessa. A Deeper Understanding é um desses álbuns. Caprichoso, não aceita menos do que a nossa total e inequívoca atenção.

A viagem é pouco atribulada. À superfície, oferece-nos paisagens semelhantes entre si. Mas a paisagem é o que menos interessa numa viagem espiritual. O som que ouvimos é o de uma banda a tornar-se mesmo boa naquilo que faz. E A Deeper Understanding é uma experiência de autoconhecimento e de aperfeiçoamento.

Às vezes, se me distraio, dou por mim perdido no meio do álbum, sem saber muito bem que música estou a ouvir. Mas é um pouco como visitar uma cidade nova: ao fim de alguns dias a visitar pontos de paragem obrigatórios, sabe bem andar um bocadinho à deriva e deixar que a cidade nos surpreenda – como quando ouvimos o refrão de “Strangest Thing” pela primeira vez. Foi assim que A Deeper Understanding me conquistou.

Antes disso, já tinha ficado de olho em “Pain”, no seu baixo de passinhos pequenos, na sua letra expressionista e no seu robusto solo de guitarra a encerrar. O raio da música é The War On Drugs na sua versão mais apurada.

É claro que Adam Granduciel é um control freak obcecado com todos os pormenores. Parece ser um daqueles insatisfeitos crónicos que dá uma péssima companhia (mas um ótimo músico). Esta atenção ao pormenor faz de A Deeper Understanding um objeto muito bem embrulhadinho, sem pontas soltas nem surpresas desagradáveis.

Tudo respira, tudo brilha e tudo está lá para ser descoberto audição após audição. “Thinking Of A Place”, a tal canção de 11 minutos, demonstra-o na perfeição. Como tem tempo para tudo, dá-nos tempo para tudo. O resultado é um dos pontos mais altos do álbum.

Iniciada por “Thinking Of A Place”, a parte final do álbum deixa-me de rastos. “In Chains” é das coisas mais bonitas que os The War On Drugs editaram até hoje. Se fosse um acontecimento histórico, “In Chains” motivaria imensos “tinhas de lá estar para perceber”. Não consigo dizer-vos muito mais, confesso. Dura mais de 7 minutos e não lhe encontro defeitos – isto tem de querer dizer alguma coisa, certo?

Já quase no fim, “Clean Living” começa a preparar-nos suavemente para o inevitável, mas é “You Don’t Have To Go” que dá cabo de tudo. Começa em tom de fim de noite. Uma corda da guitarra acústica vibra demais por roçar num traste, o piano diz-nos que o bar está quase a fechar e o baixo encaminha-nos para a saída. Mas, começando pelo título, tudo o resto nos diz que não temos de ir. A guitarra eléctrica de Granduciel continua a chamar-nos, os sintetizadores que surgem lá para o fim a dar à canção uma dimensão épica dizem-nos que isto agora é que está a ficar bom e a harmónica oferece-nos uma rodada. Mas parece que é mesmo a última, infelizmente.

Nos videojogos, costuma falar-se de “replay value” quando um jogo tem características que tornam interessante jogá-lo mais do que uma vez. Ora, A Deeper Understanding está longe de se esgotar na primeira audição. Além disso, é intelectualmente estimulante e, apesar dos laivos psicadélicos, de uma economia impressionante. Não há nada em falta, não há nada a mais. E, ainda assim, cada vez que voltarem a A Deeper Understanding, vão encontrar algo de novo.