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O espírito missionário dos Sylvan Esso

Sylvan Esso

Missão. Se estudaram marketing ou gestão, é muito provável que tenham ouvido falar deste deliciosamente inútil e tendencialmente mentiroso resumo da razão de existir de uma organização. No entanto, é este conceito que me vem à cabeça quase sempre que ouço “Sound”, a canção que abre What Now, segundo álbum de originais dos Sylvan Esso.

Eles cantam a missão deles:

All you’ll hear is sound
All you’ll feel is sound
All you’ll be is sound

Quem já os viu ao vivo sabe do que falo.

Cruzei-me com eles duas vezes: a primeira, quase sem os conhecer, foi em Paredes de Coura no verão de 2015; a segunda, já convertido ao culto, foi há coisa de um mês em Berlim.

Antes de os ver em Paredes de Coura, conhecia “Coffee” e sabia que eram um duo  de música eletrónica composto por Amelia Randall Meath, das Mountain Man, e Nick Sanborn, que tinha tocado com os Megafaun. Nada mais. Espiritualmente, fechámos negócio na hora. Eles pareciam felizes e eu parecia suado. Impossivelmente suado. E estava.

Em Berlim foi diferente. Não fui lá descobrir nada, fui desfrutar. Dos pormenores escondidos, da voz dela, daquela energia toda. E vê-los numa sala em que toda a gente lá estava para os ver contribuiu para transformar aquilo numa celebração do caraças. Resumindo, foi um bom concerto.

Foi bom porque eles são bons. Ouvi-los em disco não serve para perceber o que raio é um concerto de Sylvan Esso, que isso é uma experiência em nome próprio. É bem mais difícil encontrar aquela energia pura que eles descarregam em palco — talvez dê para imaginar um bocadinho ouvindo “H.S.K.T.”, “Radio” ou “Kick Jump Twist” —, mas arranjem uns bons headphones e esqueçam o mundo.

Os Sylvan Esso agarraram-me com uma força estúpida e eu não sei o que fazer. Aliás, não quero fazer nada. Ouço “Coffee” com muito menos frequência do que há dois anos, mas, sempre que a visito, fico meio estupefacto com a perfeição pop, derretido com a voz dela e arrepiado com aquele final grandioso. Só me apetece pô-la a tocar novamente.

Ainda do primeiro álbum, lançado em 2014, guardo num cantinho especial “Uncatena”, uma hipnótica canção sobre rejeição, cheia de “nãos”, “slippery beginnings” e amor não correspondido. O resto é para aproveitar bem ao vivo: “Hey Mami”, “Play It Right” e “WOLF”, entre muitas outras.

Se Sylvan Esso, o primeiro álbum, me tinha deixado a chorar por mais, What Now, editado já este ano, foi… mais. Não mais do mesmo, mas mais. Mais tudo.

“Sound” dá conta das intenções. “The Glow”, “Die Young” e “Radio”, por outro lado, deixam claro que, apesar das influências folk e dos projetos paralelos de ambos os membros, a casa dos Sylvan Esso é a pop. As três canções foram, de resto, escolhidas como singles.

What Now passa a correr. Não é um álbum longo — tem 36 minutos —, mas a forma como cada canção escorrega para a seguinte só o faz parecer ainda mais curto. Mesmo depois de “Kick Jump Twist”, a fechar o lado A do álbum, nos dar liberdade para partir tudo (ali a partir dos 3 minutos e 25, meu deus!), passa a correr. Mesmo depois de “Song” e “Signal” nos amansarem, passa a correr. Resta-nos tentar acompanhar.

E eu acompanho. E se já estava de rastos, quando chega “Slack Jaw”, digo adeus ao mundo. É a minha canção de Sylvan Esso. Foi escrita para mim. Quando toca, é a coisa mais triste e bonita do mundo. E nas Echo Mountain Sessions, que deram origem a um EP com versões de alguns temas de What Now com banda, “Slack Jaw” brilha ainda mais. É difícil bater isto.

“Rewind” fecha What Now em modo de descompressão, de abraço pós-tareia. (No tal Echo Mountain Sessions EP, curiosamente, surge no início, que a tareia ali nunca chega.)

Talvez já tenham percebido que, para mim, What Now é infinitamente superior a Sylvan Esso. Tem provado ser um bom companheiro de viagem, tem provado resistir à passagem do tempo, tem provado ser um grande, grande disco. Cheio de pormenores curiosos, como o sample de Wye Oak em “Signal” ou a fusão entre voz e arranjos em “Sound” e em “Slack Jaw”.

No fim das contas, porém, tanto faz se isto é melhor do que aquilo ou vice-versa. A música dos Sylvan Esso é um conjunto muito decente de canções criado por um conjunto muito decente de pessoas.

There’s so many rhythms and harmonies, dizem eles. E entretanto apercebo-me de que passaram umas horas e, entre ritmos e harmonias, som é tudo o que sou. Missão cumprida, I guess.