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Ainda agora chegou

Um álbum editado e já está tudo rendido a Phoebe Bridgers.



A minha relação com o Popcast, o podcast de música pop do New York Times, continua a dar frutos. Num episódio dedicado ao futuro do indie rock em que se falou muito de Lucy Dacus (sim), Soccer Mommy (sim) e The Breeders (não), foram os cinco minutos dedicados a Phoebe Bridgers que me atiraram ao chão.

Phoebe Bridgers, que eu não conhecia, tem 23 anos e editou o primeiro álbum em 2017, mas já por aí anda há pelo menos meia dúzia de anos. Cresceu em Pasadena, nos arredores de Los Angeles, e começou a ganhar alguma notoriedade na cena musical local ainda durante a adolescência. Foi a tocar por L.A. no último ano do liceu (onde também estudaram as irmãs Haim, curiosamente) que conheceu Ryan Adams. Foi amor à primeira vista e o músico convidou-a no dia seguinte para gravar algo no seu estúdio. Assim nasceria Killer, o primeiro EP de Phoebe Bridgers, lançado em 2015.

Mas antes disto, em 2014, já tinha havido um anúncio para a Apple com uma cover de “Gigantic”, dos Pixies. Tinha havido também “Waiting Room”, uma canção de amor irremediavelmente adolescente que começava como folk docinha e acabava, 6 minutos depois, numa espécie de versão emo dos Coldplay. Dito assim parece horrível, mas é um pouco como comer demasiado açúcar: ali durante um bocadinho soube muito, muito bem.

Entre 2015 e 2017, veio o hype. Ryan Adams rendido, Conor Oberst rendido,  digressão com Julien Baker, canções em séries de TV e… toda a gente rendida.

O lançamento de Stranger In The Alps em 2017 veio simplesmente confirmar o que muitos esperavam: Phoebe Bridgers tem uma voz bonita, escreve muito bem e sabe construir uma canção. E aqui volto ao primeiro parágrafo e à canção que me atirou ao chão: “Smoke Signals”.

Sombria e doce, “Smoke Signals” é perfeição pop. A guitarra embala-nos levemente, a letra carrega uma sensação de viagem a dois e o lamento da voz encaixa na música e nos arranjos de cordas com um rigor quase matemático. E depois há a segunda guitarra, que acompanha o refrão e traz à lembrança o tema de Twin Peaks, da autoria de Angelo Badalamenti, contribuindo para um ambiente soturno, ao mesmo tempo acolhedor e levemente desconfortável.

De resto, Stranger In The Alps está cheio de boa música, como “Motion Sickness”, single e tema mais animado do álbum. Só pelo refrão já valia a pena:

I have emotional motion sickness
Somebody roll the windows down

(Boa sorte a tirarem isto da cabeça.)

E “Scott Street”? Tanto a estrutura como a letra tornam evidentes o talento de Phobe Bridgers para a composição de canções. O final resulta quase como o de “Waiting Room”, mas sem a intensidade emo, o que me diz que há aqui um processo de refinação a decorrer.

Quando se começa a escrever música tão cedo, a escola, o amor, a cultura pop e a família acabam por ser referências naturais. Phoebe Bridgers não foge de nenhuma delas e um dos pontos altos de Stranger In The Alps acaba por ser um dos mais inequívocos exemplos da alínea “família”: “Would You Rather”. Conseguir carregar de ternura (a música é sobre o irmão mais novo) uma letra que fala de fogo posto e de um metafórico pacto suicida é obra. Mas ouve-se a canção – um dueto com Conor Oberst (Bright Eyes) – e nada disto parece estranho. Aliás, a voz de Oberst, bem mais certinha do que me lembrava, ajuda a dar à canção uma sensação de casa quentinha, de estar entre os nossos.

Stranger In The Alps passa a correr porque é um álbum do caraças. Mesmo cheio de tristeza e nostalgia e drama pós-adolescente, cola-se imediatamente ao cérebro e, apesar da soar familiar, soa também… novo. Quantas novidades destas terá ainda Phoebe Bridgers para nos dar?

Mas sem pressões, sem pressões.