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Ouvir música country vs. ter amigos

A vida é feita de escolhas.

A minha atual obsessão com a música de Jason Isbell tem tido efeitos colaterais interessantes no meu consumo de música country — e, consequentemente, na minha vida social.

A lógica é relativamente simples: amigo do meu amigo meu amigo é. Se Jason Isbell, por algum motivo, está próximo de Sturgill Simpson, então vamos lá ouvir Sturgill Simpson. E se tanto Isbell como Justin Vernon não se calam sobre a importância histórica e o novo álbum de John Prine, aqui vamos nós também.

Infelizmente, as consequências na minha vida social são menos positivas, já que a maior parte das pessoas do lado de cá do Atlântico não parece apreciar especialmente o género. E como tenho tendência para usar e abusar do “repeat”, as pessoas mais afetadas tendem a reagir negativamente. Portanto, estou a isto de os meus colegas de trabalho me atirarem da janela (ou de me amandarem do Titanique, algo que eles muito apreciam).

A verdade é que não me têm faltado motivos para ouvir country nos últimos tempos. Tenho estado mais disponível para o género, claro, mas há coisas que simplesmente me têm caído no colo.

O barulho todo em torno de Margo Price no ano passado, por exemplo, deixou-me curioso. Fui ouvir, era country a sério. Dificilmente gostaria das coisas mais yee-haw!, mas as letras cruas e a atitude sem papas na língua de Margo Price dão a All American Made, o álbum que lançou no ano passado, um toque especial. “Pay Gap”, sobre as disparidades salariais entre homens e mulheres (a favor dos homens, para o caso de haver dúvidas), fala do que tem a falar sem largar aquele cheiro a campo… mas a mensagem passa. Country de esquerda, meus. E o álbum está cheio de pérolas.

Já este ano, o hype levou-me até Kacey Musgraves, uma miúda da country disposta a misturá-la com tudo o que alguma vez foi pop. Até disco ela conseguiu pôr em Golden Hour, álbum editado em 2018. Os puristas de Nashville devem estar a correr para os seus barracões cheios de feno, mas não é preciso: a descontraída e expectavelmente lenta “Slow Burn” torna claro que ela sabe fazer um bocadinho de tudo.

Mas uma pessoa que nunca ligou especialmente ao género não se pode ficar pelas novidades. Uma passagem pela discografia de Willie Nelson levou-me a Red Headed Stranger, de 1975, e não posso queixar-me do que ouvi. Tendo a ter mais dificuldade em ligar-me a música mais antiga, mas às vezes o grau de pureza da música faz toda a diferença. A simplicidade de “Blue Eyes Crying In The Rain” diz tudo isto melhor do que eu.

Os que me chegam “recomendados” partem normalmente em vantagem. Sturgill Simpson, John Prine e Hiss Golden Messenger são, portanto, uns felizardos.

O primeiro é uma espécie de herói da country sem airplay, que é uma coisa muito relevante para o sucesso comercial de músicos do género. As suas circunstâncias tornam-no numa espécie de espírito livre que faz e diz o que quer. E isso normalmente dá boa música, como se pode ouvir na doce e levemente esquisita “Turtles All The Way Down”.

Já John Prine deveria dispensar apresentações, mas eu não o conhecia de lado nenhum. No entanto, depois de lhe ouvir a voz, é como se o conhecesse desde sempre. Mesmo que na verdade sejam duas vozes diferentes: uma pré-1998, quando lhe foi diagnosticado um cancro; outra, bem mais grave, desde então. “Summer’s End”, editada este ano em The Tree Of Forgiveness, é um bom exemplo desta segunda fase.

Hiss Golden Messenger, projeto de M.C. Taylor, é um caso à parte. Tem mais de americana do que de country propriamente dita, e vai beber muito mais aos blues do que qualquer um dos outros, mas tem aquela ruralidade da country e usa as mesmas ferramentas, portanto deslarguem-me. Talvez por isso, Hiss Golden Messenger é também aquele a que me tenho dedicado mais nos últimos tempos. Os dois últimos álbuns, Heart Like a Levee (2016) e Hallellujah Anyhow (2017), são ambos muito fáceis de consumir. Oferecem, ao mesmo tempo, muita coisa para descobrir à medida que os voltamos a ouvir. “Domino (Time Will Tell)” é das mais enérgicas do último álbum, mas a viagem tem muito mais para oferecer.

Além do hype, dos clássicos e das recomendações, tive a sorte de ser visitado recentemente por velhos amigos: The Decemberists. Nem eles são artistas country, nem o novo álbum é especialmente bom, mas isso não os impediu de incluírem uma prenda chamada “Sucker’s Prayer” no disco. Eles tendem a piscar o olho à country uma ou duas vezes por álbum — “The Hazards Of Love 4 (The Drowned)”, “June Hymn” e “Make It Better” são das minhas músicas favoritas deles — e I’ll Be Your Girl não é exceção. E só por este refrão já teria valido a pena:

I wanna throw my body in the river and drown
I wanna love somebody but I don’t know how

Deixo-vos as músicas. A ver se isto agora acalma, que gostava de continuar a ter amigos. Mas, pelo sim, pelo não, deixem-me acrescentar Jason Isbell à playlist.