Este é o terceiro de três artigos sobre o melhor da música em 2025.
2025 foi um ano interessante, desde logo porque marcou o regresso do indie rock ao universo da música culturalmente relevante e mediática. Naturalmente, eu chamo-lhe um figo.
Os melhores álbuns de 2025:
10 – Snocaps – Snocaps
Uma surpresa de última hora, o álbum de estreia de Snocaps tem uma receita difícil de bater: reúne as gémeas Katie (Waxahatchee e P.S. Eliot) e Allison Crutchfield (P.S. Eliot) e acrescenta-lhes MJ Lenderman e Brad Cook, que colaboraram em Tigers Blood. Depois de tudo bem misturado, Snocaps vai buscar canções à juventude das duas irmãs e trá-las para o universo musical da americana. “Coast”, “Doom” e “Avalanche” são conforto para os meus ouvidos.
9 – Samia – Bloodless
A cultura da miúda triste continua órfã da desaparecida Phoebe Bridgers, mas Samia foi quem mais perto esteve de me encher as medidas em 2025. Bloodless evoca imagens fortes, até violentas, através das letras extremamente vívidas em cima de música doce e melancólica. Canções como “Proof”, “Bovine Excision” e “North Poles” foram excelentes companhias este ano.
8 – Jeff Tweedy – Twilight Override
Twilight Override não se afasta particularmente dos terrenos da restante obra a solo do vocalista dos Wilco. Evita os extremos e alimenta o lado bom da alma, com momentos, como “Feel Free”, “New Orleans” e “Parking Lot”, que me põem a pensar sinceramente no termo “obra-prima” a propósito dele.
7 – Rosalía – Lux
Se “Berghain” chegou com estrondo, Lux deu-lhe o seguimento necessário com temas como “Reliquia” e “Magnolias” e mostrou uma Rosalía capaz de virtualmente tudo — todos os géneros musicais, todos os idiomas, todos os registos possíveis e imaginários — num álbum a que, como o anterior desta lista, é difícil não associar o epíteto “obra-prima”.
6 – Wednesday – Bleeds
Cheguei tarde aos Wednesday, mas perfeitamente a tempo de me render a Bleeds, uma mistura de slacker, grunge e country que vai da agridoçura de “Townies”, “Carolina Murder Suicide” e “Elderberry Wine” à berraria acelerada de “Wasp”, passando pela maravilhosa “Pick Up That Knife”. O estilo de escrita de Karly Hartzman é hiper-específico, as canções são muito geográficas, mas os sentimentos partilhados acabam por ser relativamente comuns: tristeza, admiração, impotência e frustração — com a vida, sobretudo com os outros.
5 – Dijon – Baby
Que artista peculiar. Que álbum peculiar. Baby começa por ser como uma afta a que não conseguimos resistir. Mas é com a insistência que se começa a ver em Baby um maravilhoso mundo novo musical que não se deixa limitar por géneros ou formatos padronizados. Em canções como “HIGHER!”, “Yamaha” e a sublime “Rewind”, Dijon mostra que é ele quem decide o limite do que pode fazer.
4 – Geese – Getting Killed
Os Geese foram os grandes responsáveis pelo regresso do indie rock à ribalta em 2025. Getting Killed tem tudo: apelo mainstream, um vocalista carismático, uma esquisitice muito própria e malhões como “Cobra”, “100 Horses”, “Au Pays Du Cocaine” e “Taxes”. Um álbum marcante.
3 – Bon Iver – Sable, Fable
Sable, Fable é um longo e quente abraço. Pode ser que seja de despedida, pode ser que não. Se estiverem para aí virados, vai saber bem de qualquer forma. “Speyside”, “Walk Home”, “Everything Is Peaceful Love” e, claro, “There’s A Rhythmn” vão ajudar-vos a aceitar que “and maybe it’s time to go”.
2 – Ethel Cain – Willoughby Tucker, I’ll Always Love You
Não sei o que me fez ouvir “Nettles” depois da experiência com Perverts, o outro álbum que Ethel Cain lançou em 2025. Mas, o que quer que tenha sido, trouxe-me Willoughby Tucker, I’ll Always Love You, um dos álbuns mais imediatamente arrebatadores que ouvi na vida. O que, para um álbum tão lento, tão longo, tão sombrio, é uma prova de valor artístico inegável — como fica claro nas épicas “Dust Bowl”, “Waco, Texas” e “Tempest”. Abençoado instinto.
1 – Great Grandpa – Patience, Moonbeam
Patience, Moonbeam é sobre a procura da fórmula certa (mais até do que sobre encontrá-la), sobre reparar o que precisa de ser reparado e sobre aceitar o que acontece, o que a vida é, quem os outros são e também o que nós somos. A aparente dispersão deste álbum documenta fielmente o processo de amadurecimento dos Great Grandpa. É ouvir “Kid”, “Task”, “Never Rest”, “Top Gun” e a minha canção do ano, “Doom”, até deixar de sentir. Vamos ver se isso alguma vez acontece.