Os Pinegrove demoraram o seu tempo a chegar aos meus ouvidos, mas agora ninguém os tira daqui.

Quando o coração aperta, sabemos que é caso sério.

Dei por mim a entrar neste modo aqui há dias, enquanto regressava a casa, depois de levar os miúdos à escola. Vinha a pé e o dia ainda não tinha aquecido, mas o sol já me fazia duvidar das minhas escolhas de vida e, consequentemente, o casaco seguia pendurado na mão. Nunca há testemunhas — ou, pelo menos, não haverá testemunhas que queiram saber do assunto —, mas estas minhas pequenas caminhadas são marcadas pelo ritmo intenso e uma certa urgência de chegar a casa, onde há, normalmente, café e trabalho para fazer. Esta não foi diferente. Não a esse respeito, pelo menos.

Tenho ouvido muito Pinegrove nos últimos meses. Muitas canções, muitas vezes, muito tempo. Estou, portanto, num daqueles estados em que é melhor ficar longe dos outros. A não ser que os outros queiram saber mais sobre Pinegrove. Muito, muito mais sobre Pinegrove.

Ainda assim, há dias, naquele regresso a casa, aquilo aconteceu. É uma sensação estranha que tenho dificuldade em explicar, mas que creio reconhecer: uma espécie de êxtase em que me sinto contrair o corpo e cerrar os dentes enquanto os meus ouvidos são absolutamente tomados de assalto por música num volume que mereceria a censura de qualquer otorrinolaringologista deste país. E foi assim que soube que era caso sério.

É óbvio que já desconfiava que estava a chegar a este ponto. Mas o que me surpreendeu realmente foi a canção que fez disparar os alarmes: “Cyclone”, que, na sua versão ao vivo em Montclair (Live at the Wellmont Theater), passou de “girita” a “ponham-ma na veia” de um momento para o outro. E assim acontece.

I knew happiness when I saw it

Andei três ou quatro anos com uma canção de Pinegrove a dar-me dentadinhas nos tornozelos. “Orange”, uma valsa plena de desencanto sobre as alterações climáticas, arde por dentro enquanto o mundo arde por fora. Tocou-me quando me cruzei com ela e por cá ficou a tocar de vez em quando. Mas não fui atrás da banda, deixei-me estar.

De resto, diz-me o Last.fm que já em 2018 me tinha cruzado com duas canções dos Pinegrove — que rodaram três vezes cada —, mas lembro-me disso tanto quanto vocês.

Mais recentemente, começaram a reunir-se as condições necessárias a um daqueles mergulhos capazes de demorar. O Spotify decidiu sugerir-me uma canção — “Hairpin” — e Cardinal, o segundo álbum da banda, decidiu fazer dez anos. Com o aniversário, surgiram os artigos e as partilhas nas redes sociais e eu, que não sou inteiramente desprovido de curiosidade, lá me fui pôr a ler coisas sobre o álbum. 

E assim cheguei, através de uma newsletter do crítico Steven Hyden, a um artigo escrito por Jenn Pelly em 2018 e à polémica em que Evan Stephens Hall, líder e vocalista da banda, se envolveu em 2017, com o braseiro do movimento #MeToo cheio de força. Foi uma salgalhada que não me sinto capaz de resumir aqui. Há toda uma Wikipédia disponível para quem quiser saber mais.

Mas houve algo no artigo de Jenn Pelly, além da complexidade moral da situação em que os Pinegrove se meteram, que me fez ficar com a pulga atrás da orelha. A determinada altura, a autora citava meia dúzia de versos de “Old Friends”, tema de abertura de Cardinal:

Walking out in the nighttime springtime
Needling my way home
I saw Leah on the bus a few months ago
I saw some old friends at her funeral
My steps keep splitting my grief
Through these solipsistic moods
I should call my parents when I think of them
Should tell my friends when I love them

Aquilo caiu-me em cima com um estrondo que não me deu alternativa senão ouvir o álbum. E assim acontece.

It tends to sublimate away

Cardinal começa com “Old Friends” e acaba com “New Friends”, dois excelentes cartões de visita para quem se queira virar para os Pinegrove, mas eu encontrei o meu refúgio em “Aphasia”, uma canção sobre codependência, insegurança e as dificuldades que uma pessoa às vezes tem em deitar tudo cá para fora — um tema que me é muito querido.

Mas Cardinal não se fica por aqui: “Cadmium” e “Size of the Moon” completam a lista de destaques de um álbum curtinho, mas intenso. O caminho — indie rock melódico, que tanto pisca o olho à americana como puxa a franja para o lado do emo — ficou definido aqui.

Como já conhecia uma ou duas canções de outros álbuns, aproveitei e pus-me a mexer. Skylight, o álbum que se seguiu a Cardinal, abre com “Rings”, a canção que mais me faz lembrar Death Cab For Cutie numa banda que me faz um pouco lembrar Death Cab For Cutie. Mas, da gentileza de “Skylight” e “Paterson & Leo” à energia de “Angelina”, passando pela luz ao fundo do túnel de “Intrepid”, também neste álbum não faltam canções que se destaquem.

A única novidade que a escuta seguinte — 11:11 — me trouxe foi a cor da capa. “Habitat”, “Orange” (cá está ela), “Iodine” e — olá! — a mui americana “Cyclone” dão, cada uma à sua maneira muito particularzinha, cabo de mim. Como, de resto, convém não esquecer, estamos a dar cabo do planeta.

What’s the worst that could happen?

Os restantes álbuns e compilações e sei lá mais o quê também por aqui têm passado, mas o meu foco tem vindo a transferir-se para álbuns e atuações ao vivo. O YouTube está cheio delas. As plataformas de streaming estão cheias delas. Até a minha cabeça, nos dias que correm, está cheia delas. Tenho estado particularmente dedicado a Montclair (Live at the Wellmont Theater), um álbum ao vivo que parece captar na perfeição a essência da banda, do seu público e até da sua razão de ser. É, de resto, o mais apropriado presente de despedida que os Pinegrove poderiam ter dado aos seus fãs. Um concerto na sua cidade. A fotografia perfeita.

Em abril de 2023, os Pinegrove anunciaram a saída de Zack Levine, fundador e baterista da banda e amigo de infância de Evan Stephens Hall. Já tinha havido mudanças antes, mas nenhuma como esta. Assim, com isto e apesar de a porta parecer um bocadinho entreaberta, a banda chegou ao fim.

O hiato dura há três anos, mas foi ainda em 2023, poucos meses depois do anúncio, que a banda chegou a muito mais gente, sobretudo graças ao TikTok, onde “Need 2”, uma canção de 2014, se tornou viral como banda sonora de uma dança que ficou conhecida como Pinegrove Shuffle. E eu estou num estado tal que quase percebi o apelo do fenómeno. Quase.

Mas, chegado aqui, o que faço eu com isto? Estou muito longe de esgotar a água deste poço. Resta-me continuar. Continuar a viver na prisão que as variações rítmicas que eles insistem em pôr nas músicas criaram para mim. Ou continuar agarrado à simplicidade de versos como os desta maravilhosa sequência de “New Friends”:

Steve’s in Germany, that’s it
I try to think of anyone else
No, yeah, that’s it

No fundo, aceitar a inevitabilidade que os Pinegrove já são na minha vida e continuar a derreter os meus ouvidos com as canções deles. Só espero que, na hora de descer, a ressaca seja gentil comigo.

Enquanto isso não acontece, venham comigo, se quiserem.