Skip to content

Gustavo

Mark Kozelek

Há meses que ando viciado numa música de Mark Kozelek. Aliás, graças aos últimos cinco anos, Mark Kozelek, Sun Kil Moon e Red House Painters são nomes já gastos nas andanças dos meus vícios musicais. Agora a culpada é provavelmente a canção mais insuspeita de todas: “Gustavo”.

“Gustavo” é uma canção sobre um imigrante ilegal mexicano que Mark Kozelek contratou para fazer obras numa casa velha que comprou. É, também, sobre como as obras ficaram por fazer por Gustavo ter sido deportado. A canção foi editada em 2013 num álbum de Mark Kozelek com Jimmy LaValle chamado Perils From The Sea, havendo já algumas versões acústicas editadas em álbuns ao vivo.

E o que raio faz de “Gustavo” algo viciante?

Ainda não sei, ainda não sei.

Mas tenho pensado muito sobre o assunto e a culpa é de Mark Kozelek, que tem vindo a tornar-se um excelente contador de histórias, sobretudo desde o início dos Sun Kil Moon. Não sei se foi propositado ou não mas, nos últimos álbuns, o norte-americano tem adotado a corrente de consciência como estilo predilecto… dando a cada canção uma história vívida, pormenorizada e que vai crescendo no ouvinte à medida que este regressa à música para a ouvir novamente.

“Gustavo” é um bocado isto. Começa descomprometida, com a compra da casa, a contratação de Gustavo e uns amigos para a arranjar. Passa para a vida deles naquela pequena cidade e dá-nos a mão enquanto acompanhamos Kozelek a ver, com as suas botas molhadas e roupa de inverno, armas e munições em montras de lojas.

Depois de conversas sobre Gustavo estourar o dinheiro todo em prostitutas e casinos, acontece o episódio que leva à deportação. Logo a seguir, Kozelek recebe uma chamada e… em vez de explicar eu, leiam a letra:

He called me collect from a Tijuana pay phone
Asking man, could you wire me money?
2500 for a border coyote
He needed work and he missed his family
But I hung up and I said I’m sorry
But I hung up and I felt uneasy
I hung up and my heart was heavy

Até a mim me doeu. Sinto que a minha dor deveria ter origem na situação de Gustavo mas é com Mark Kozelek, um tipo bastante detestável durante grande parte do tempo, que ela se manifesta. Com os remorsos, com a sensação de que a decisão tomada não foi a mais correta. E é isto que o raio da canção faz. E é isto, este momento, que me obriga a voltar a ela tantas vezes. É certamente uma variante ligeira de masoquismo.

Mark Kozelek abandona rapidamente o registo dramático e começa a queixar-se de como as obras ficaram por fazer, que ainda contratou outro homem mas que também ele deixou o trabalho por fazer porque tinha a mulher a morrer de cancro e a coisa passa rapidamente a uma espécie de conspiração do universo contra Mark Kozelek. Um é deportado, o outro tem a mulher a morrer de cancro… mas Kozelek é que tem azar nesta história.

E a verdadeira ironia nesta canção só chega mesmo quase no final, quando o músico relata como o jardineiro e a namorada lhe perguntam por Gustavo, ele ri-se e diz “fuck, no” e termina as referências ao mexicano com:

Really I don’t give much thought to Gustavo

Daí até ao final é um saltinho cheio de referências a fazer lembrar as paisagens rurais dos Red House Painters… mas é este o verso que marca o verdadeiro final da canção. Uma canção chamada “Gustavo” sobre a história de um homem chamado Gustavo em quem Mark Kozelek não pensa muito.