5 artistas sem hype que deviam ouvir agora

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Este artigo foi publicado originalmente no Strobe.

Há uns dias falava com um colega de trabalho sobre música, cinema e videojogos. Discutíamos sobre como algumas pessoas fazem da contracorrente um modo de vida quando, a determinada altura, ele me disse que eu era uma dessas pessoas. Ele dava a entender que, quando uma coisa fica conhecida, eu deixo logo de gostar. Indignei-me, como é óbvio.

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Quem é Dan Mangan?

Dan Mangan

Cruzei-me pela primeira vez com a música de Dan Mangan há quase três anos. Recordo-me perfeitamente: foi “amor à segunda vista”. A primeira vez que oouvi, achei giro mas não me impressionou. Mas algumas semanas depois decidi pôr o álbum a tocar no carro e foi nessa noite que, a determinada altura, “Fair Verona” se fez ouvir e mudou tudo. Estava sozinho e senti-me quase como se tivesse ganho um prémio moderadamente alto numa qualquer lotaria, sem saber muito bem como lidar com isso. Senti também que aquilo que ali estava a tocar era um segredo demasiado bem guardado para o meu gosto.

De certa forma, Dan Mangan ainda é um segredo para uma parte significativa do mundo. No Canadá, já levou uns Juno para casa e foi nomeado para um Polaris– nada mau para um tipo tão pouco conhecido fora do Canadá. Por exemplo, a bíblia da música independente, a Pitchfork, nunca ouviu falar (ou pelo menos nãoquer falar) de tal pessoa. E toda a gente sabe o que acontece a bandas e artistas independentes que não estão na Pitchfork, certo?

Proponho-me – com um misto de humildade e arrogância – lutar contra isso. Como? Simples: falando da música dele até ter convencido cada um de vocês.

Então, vá: quem é este tal de Dan Mangan?

Ainda bem que perguntam.

Dan Mangan é um músico de Vancouver, no Canadá, que cresceu, segundo a curtíssima biografia publicada no AllMusic, rodeado de discos dos pais. Nick Drake e The Beatles tornaram-se referências obrigatórias para o miúdo que já começava a dar uns toques na guitarra e chegou mesmo a ter uma banda, os Basement Suite. Não me perguntem nada sobre eles, que não faço ideia.

Em 2003, com 20 anos, gravou um EP com nove músicas chamado All At Once que adorava conhecer mas não conheço. Segundo a Wikipedia, foram editadas e distribuídas 500 cópias deste EP acústico… e é isto. Nada mais consigo dizer-vos.

Há, no entanto, uma canção deste conjunto que foi reaproveitada por Dan Mangan alguns anos depois: “Till I Fall”, que podemos encontrar no Roboteering EP, editado em 2009. Mas já lá vamos.

Postcards And Daydreaming

Corria o ano de 2005 quando Dan Mangan foi para estúdio gravar aquele que viria a ser o seu primeiro álbum de originais. Já em formato banda, com dois ilustres desconhecidos chamados Daniel Elmes e Simon Kelly, Postcards And Daydreaming viu a luz do dia em outubro de 2005. Esta edição de autor de mil unidades era vendida online e em concertos mas cedo se percebeu que a coisa não ia ficar por aí – e não ficou. Em 2007, a File Under: Music, uma editora independente de Vancouver, reeditou o álbum.

Mas afinal o que tem o álbum de especial?

Bem, antes de mais, percebe-se que é um primeiro álbum, claramente. Com uma maturidade acima da média, não consegue, ainda assim, disfarçar algum desnorte. As influências de Nick Drake ainda estão muito presentes mas há um pouco de tudo. Da pop/rock convencional de “Above The Headlights” à folk de “Come Down”, passando pelo rock baladeiro de “Not What You Think It Is”, é fácil perceber que as letras intimistas de Dan Mangan estão uns passos à frente damúsica. Há, ainda assim, momentos estupendos, como a dupla “So Much For Everyone”/”Western Wind” e a sublime “Some Place To Come Home To”. Postcards And Daydreaming é um álbum para se ouvir depois dos outros, como se fosse uma compilação de lados B. Mas é para ouvir à mesma. Até porque a voz meio grave, meio rouca de Dan Mangan já se faz ouvir aqui em toda a sua glória.

Roboteering EP e Nice, Nice, Very Nice

Dois anos depois da File Under: Music ter pegado em nele, Dan Mangan lança Roboteering EP, dando assim uma ideia bastante clara daquilo que poderíamos esperar de um segundo álbum. “Robots”, “The Indie Queens Are Waiting” e “Sold” eram as três primeiras canções deste EP e voltariam a estar assim bem juntas em Nice, Nice, Very Nice. Uma das que ficou para trás foi “Tragic Turn Of Events / Move Pen Move”, que brilha a fechar o EP graças ao encontro da guitarra acústica de Dan Mangan com a spoken word de Shane Koyczan. “Move Pen Move”, que é a parte da autoria de Koyczan, tinha sido já editada em A Pretty Decent Cape In My Closet no ano anterior.

2009 ia ser o ano de Dan Mangan. Nice, Nice, Very Nice, que deve o seu nome a um verso de um maravilhoso poema de Kurt Vonnegut, tinha sido gravado no ano anterior e foi recebido pela crítica da melhor forma possível. Com boas críticas. E com prémios.

E eu percebo porquê. Aliás, foi (bem mais tarde) graças a este álbum que descobri Dan Mangan e só posso dizer que as críticas não chegam para explicar o que Nice, Nice, Very Nice é. Tem algumas das melhores letras de canções que alguma vez li e ouvi, com aquela simplicidade terrena de um Mark Oliver Everett e a elegância de um outro Mark, o Kozelek (dos Sun Kil Moon e dos Red House Painters). Ele próprio diz, em “Tina’s Glorious Comeback” que vendeu a alma ao diabo por uma boa “penmanship”, mas que agora escreve bem e está a ficar arrependido. Não vejo porquê.

Peço-vos encarecidamente que ouçam a letra de “You Silly Git” para compreenderem o que quero dizer. E se isso não resultar, entãoo há como escapar aos pesos pesados “Fair Verona” e “Basket”, duas das minhas canções favoritas de sempre (estou a dizer isto pela primeira vez mas não tenho a mais pequena dúvida de que é verdade). Uma é épica e teatral, a outra mostra verdadeiramente o que Dan Mangan é enquanto artista: um subtil cantor de histórias.

(Esta é a altura em que vos digo que, mesmo que não leiam este artigo na sua totalidade, vejam o vídeo seguinte até ao fim. Não precisam de agradecer.)

Mas o álbum é todo ele impressionante. O aparente desnorte tinha desaparecido – Nice, Nice, Very Nice foi, desde o primeiro momento, um passo firme em forma de álbum perfeito.

Em 2010, a Arts & Crafts pegou no álbum para o distribuir nos Estados Unidos e na Europa – foi graças a isto que fiquei a conhecê-lo.

Oh Fortune

Em setembro de 2011, depois de vários meses de gravações e digressões, Dan Mangan lançou Oh Fortune. Em termos sonoros, a evolução foi natural – para um som ainda mais completo e grandioso. É, também, o álbum mais maduro e adulto que editou.

Pessoalmente, ainda continuo a preferir aquela simplicidade folk de Nice, Nice, Very Nice – de que ainda podemos encontrar resquícios em “If I Am Dead” – mas é impossível ouvir Oh Fortune e não gostar. Canções como “Post-war Blues”, “Starts With Them, Ends With Us” e “Rows Of Houses” não me deixam mentir.

Já em 2012, Dan Mangan lançou Radicals, um single que tem em “We Want To Be Pleasantly Surprised, Not Expectedly Let Down” a sua estrela (o lado B é uma cover pouco interessante, sinceramente). A mim faz-me especialmente feliz por ver que Dan Mangan parece estar a seguir um caminho de sons à Broken Social Scene, épicos, enormes e maravilhosos. Faz-me pensar que o futuro promete.

E é também por isso que insisto em Dan Mangan. Não percebo porque é que, fora do Canadá, continuam a não lhe ligar muito (apesar da presença num ou noutro festival de grande dimensão, como Glastonbury, por exemplo) mas acho que ainda vão a tempo.

A mim, falta-me vê-lo ao vivo. Mas não tardará muito, estou certo. Haja digressões europeias e um dinheirinho de parte. Já perdi uma oportunidade – que ainda assim me valeu um vinil de Nice, Nice, Very Nice autografado. Não tenciono perder outra.

Um álbum crescido

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Dan Mangan é um prazer recente. Há coisa de ano e meio, cruzei-me com uma canção dele – “Robots” – e fiquei interessado. Isto acontece-me de vez em quando: ouço uma música, acho interessante, e decido dar uma oportunidade a um álbum ou ao que quer que o artista tenha gravado. Foi o que fiz. Mas demorei uns meses valentes até ouvir Nice, Nice, Very Nice e, quando o fiz, roguei-me pragas por ter demorado tanto tempo. O álbum era, a todos os níveis, uma obra fantástica. Tinha canções maravilhosas, como “Basket” ou “Fair Verona”, e conjugava uma folk desinibida com letras absolutamente perfeitas. Tudo isto regado a uma espécie de depressão suburbana de que só podia gostar.

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Post-war Blues

Ainda está ouvido de fresco mas já é uma das músicas do ano para mim. O novo LP (e um saco e um poster e um booklet e uma t-shirt e, claro, o CD) de Dan Mangan – vocês sabem do que é que eu estou a falar – chegou-me hoje com o epíteto de “disco mais caro que comprei” (porque veio do Canadá e porque a Alfândega trabalha bem) e ainda só o ouvi uma vez… mas hei-de escrever sobre ele brevemente.

A música a que me refiro especificamente é “Post-war Blues” e ainda não tenho muitas palavras para a qualificar. Sei que, quando as tiver, serão lisonjeiras para a música. Ou apenas justas, não sei. Para já, ouçam (e vejam) esta versão ao vivo, que vale muito, muito a pena.